Por Cristina Sanches

Com as rápidas mudanças ocorridas no mercado de trabalho, não é raro surgirem novas profissões de tempos em tempos, como técnico em manutenção de drones, desenvolvedor de robôs, youtuber e especialista em internet das coisas. Mas pode-se acrescentar mais uma a essa lista, que apesar de não ser exatamente uma profissão nova, ainda é pouco conhecida de muitos, a de bioinformata. O nome vem da junção entre biologia e informação. A área de atuação é ampla – hospitais, laboratórios de análises clínicas, indústria farmacêutica e centros de pesquisa públicos e privados.

“O bioinformata é um profissional de pesquisa, desenvolvimento e inovação que trabalha diretamente com os dados gerados por metodologias da pesquisa médica e biológica. É uma profissão essencialmente multidisciplinar, que faz a intercessão entre várias áreas de atuação. O bioinformata usa métodos da ciência da computação para a aquisição, o gerenciamento, a análise e a predição da informação biológica e médica e transforma isso em conhecimento. Embora do ponto de vista computacional o dado médico/biológico possa ser tratado da mesma forma que qualquer outro, os resultados e as conclusões da sua análise são fortemente dependentes da metodologia experimental pela qual eles foram obtidos”, explica João Paulo Matos, especialista em Bioinformática e vice-coordenador do Programa de Pós-graduação em Bioinformática da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Para muitos, a bioinformática é considerada a profissão do futuro. Puro engano. A área nasceu nas décadas de 80 e 90, quando se tornou popular devido ao aparecimento das primeiras técnicas de sequenciamento de DNA. “As bases da bioinformática são antigas. Nas últimas décadas, tivemos avanços tecnológicos fenomenais, principalmente nas técnicas e no desenvolvimento de equipamentos científicos. Só para exemplificar, o genoma humano levou aproximadamente 11 anos para ter um primeiro esboço. Atualmente, pode-se sequenciar o genoma de um indivíduo em questão de dias”, diz Matos.

Para Michelle Vilhena, diretora técnica do Centro de Genomas, laboratório que atua na área de genética molecular e conta com um bioinformata em sua equipe, a presença desse profissional é fundamental no laboratório porque, com o desenvolvimento de técnicas mais eficazes no sequenciamento de DNA, a quantidade de sequências desse material, de RNA e de proteínas que devem ser analisadas e armazenadas aumentou, tornando necessária a presença de um profissional ou de um corpo especializado em métodos de computação e estatística dentro do laboratório.

“Como a quantidade de dados é enorme, principalmente quando utilizamos equipamentos de sequenciamento de nova geração, cabe ao bioinformata processar, integrar e analisar todas as informações, tornando possível também a comparação entre os dados gerados no laboratório e os diversos bancos de dados existentes. Dessa forma, ele também torna mais rápida a análise e a liberação do resultado do paciente.”

No Grupo Fleury, explica Ana Cláudia Rasera da Silva, gerente de Pesquisa & Desenvolvimento e coordenadora do time de bioinformatas da companhia, os projetos de pesquisa e artigos científicos publicados pelo grupo são auxiliados pela inteligência de plataformas de bioinformática. No âmbito de desenvolvimento, as novas metodologias de diagnóstico também contam com ferramentas de bioinformática para torná-las mais eficientes. “O funcionamento do sistema é monitorado na produção, ou seja, na rotina laboratorial. O bioinformata acompanha os protocolos de segurança das plataformas, a necessidade de backup de dados, a volumetria desses dados, a integração com os sistemas de terceiros, entre outras funções”, explica.

 

Perfil desejado

Quem tem interesse em atuar na área precisa estar ciente do caráter multidisciplinar exigido pela profissão e ter alta capacidade de abstração para entender um problema que vem em outra linguagem e convertê-lo para a linguagem que domina mais. Quem estuda computação e quer trabalhar com biologia e quem estuda biologia e quer trabalhar com computação deve desde cedo procurar se envolver com os assuntos em que quer se especializar, procurando estágios, por exemplo, em laboratórios de biologia molecular ou de computação. Os profissionais em geral investem primeiro na graduação em Exatas e depois no mestrado e doutorado em Bioinformática, onde complementam seus conhecimentos

“Embora métodos computacionais, estatísticos e matemáticos sejam necessários para organizar e processar estes dados, eles também devem ser analisados por meio da lente biológica, levando em consideração as particularidades dos sistemas vivos. Sendo assim, esse profissional precisa ter uma formação sólida na área de tecnologia da informação e, principalmente, uma formação mínima em disciplinas como bioquímica, biologia molecular ou  genética. Isso é absolutamente necessário para a escolha da melhor abordagem de análise dos dados e para facilitar o diálogo com os profissionais das áreas biológicas e de saúde.”

 

Mercado de trabalho

O bioinformata tem uma gama de opções de atuação. Alguns seguirão para a área acadêmica, atuando como professores ou ainda pesquisadores, que podem estar nas universidades ou nas indústrias farmacêuticas. Grandes hospitais e laboratórios de análises clínicas também contratam, bem como a indústria que depende da análise de dados de biologia, como tudo o que diz respeito à bioenergia, ao bioetanol, à cana de açúcar e toda a parte de agroindústria ligada à análise de dados e melhoramento animal.

E segundo Matos, as oportunidades só tendem a aumentar. Hoje, com a forte tendência da medicina personalizada e com dados gerados por dispositivos cada vez mais acessíveis, é questão de tempo que empresas já existentes se voltem para a análise destes dados e que novas iniciativas surjam. A indústria farmacêutica é um forte mercado, sendo um dos mais antigos. O desenvolvimento de novos fármacos utiliza em muitas das suas etapas metodologias da bioinformática.

“O que mais me deixa otimista em relação ao mercado para o bioinformata é que tal profissional, devido a sua inerente formação multidisciplinar, é extremamente versátil. E como a profissão possui mais de uma área de atuação, vagas e ofertas de trabalho sempre existirão, principalmente nos próximos anos. No entanto para ter versatilidade o profissional precisa ter muita dedicação e foco em sua formação, além de estar em constante atualização.”

 

Experiência de quem atua na área

Gabriel dos Santos Gonçalves, bioinformata que atua no Centro de Genomas, é biólogo formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e conta que o que o levou a enveredar pela área de bioinfomática foi a afinidade, percebida desde a época da faculdade, com a parte computacional da biologia, mesmo com o curso de graduação não tendo abordado a área de bioinfomática. “No mestrado percebi o valor de compreender e desenvolver as ferramentas para trabalhar com os dados biológicos, e como havia uma escassez de pessoas na área acadêmica com esse perfil, resolvi focar meu doutorado no aprendizado da bioinformática”, conta ele.

Gonçalves é responsável pelo processamento dos dados gerados pelos testes genéticos e diz que para exercer sua atividade utiliza softwares e ferramentas criados especificamente para a área de genômica, além de soluções próprias de linguagem de programação para solucionar problemas mais específicos que venham a surgir. “O volume de dados gerados por sequenciadores genômicos modernos é muito grande, de modo que tivemos que abordar a análise e o processamento de dados de uma maneira diferente nos últimos dez anos.”

Para ele, as principais competências e habilidades que o bioinformata precisa desenvolver são a paciência, a curiosidade e o autodidatismo. “Querer aprender algo novo todo dia é essencial. A nossa área é muito dinâmica, e o profissional que se acomodar e não se atualizar se tornará obsoleto em poucos anos”, avalia.

Na opinião de Gonçalves, apesar de a área acadêmica brasileira demorar um pouco para acompanhar as tendências do mercado, já existe uma preocupação dos cursos de graduação em oferecer ferramentas para que os estudantes compreendam melhor o campo da biologia computacional. “O que eu gostaria de ver no Brasil, e o que já é observado nos Estados Unidos e na Europa, é a área acadêmica se aproximando da área corporativa para que o crescimento deste setor seja sinérgico. Seria interessante mudarmos o nosso sistema de formação de novos bioinformatas para algo mais próximo ao que temos na engenharia, com um maior intercâmbio entre a área acadêmica e as empresas. O potencial de crescimento da área de medicina de precisão – conhecimento genômico aplicado às decisões clínicas – é enorme, e essa interação é a chave para que o país possa explorar todo o seu potencial.”

Nicolas Carels, especialista em bioinformática da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e um dos responsáveis pelas pesquisas que desenvolveram uma nova metodologia para tratamento do câncer que permite traçar o perfil molecular do tumor e do tecido saudável de cada indivíduo, atua na área desde 1995 e conta que muita coisa mudou desde então. “Hoje, fica difícil acompanhar os desenvolvimentos da bioinformática e estamos assistindo ao desenvolvimento da pós-genômica, com a mineração de dados das redes de sinalização e metabólica, um trabalho necessário para a concepção de tratamento molecular no contexto da medicina personalizada e também de produção de biomoléculas ativas por biologia sintética.”

Carels acredita que como o volume de dados descrevendo fenômenos biológicos complexos não para de crescer, há uma demanda integrada para o desenvolvimento tecnológico em ciência da informação e a modelagem de dados. “Com o desenvolvimento de equipamentos capazes de produzir altos volumes de dados biológicos complexos, como por exemplo sequências produzidas por sequenciadores de alta vazão ou espectrometria de massa para produzir assinatura proteicas para caraterização de proteomas inteiros, é grande a demanda por especialistas capazes de trabalhar esses dados específicos.”

Mas segundo ele, junto com a demanda vem também alguns problemas relacionados à falta de preparo do profissional e dificuldades de atuação. “Há vários tipos de profissionais bioinformatas atuando no mercado. Basicamente ele pode ser orientado para a tecnologia da informação, e tratar da complexidade biológica como um desafio de TI, sem entender muito bem a finalidade biológica, o que representa um perigo no sentido de que uma ferramenta sofisticada pode acabar sendo desenvolvida, mas sem a praticabilidade esperada para um biólogo. Temos também aquele que encontra dificuldades para alcançar a sua meta por não ser suficientemente treinado em TI ou em modelagem matemática, e temos ainda um terceiro perfil, o do  profissional bem informado sobre qual ferramenta usar em determinado problema específico passar a ser considerado bioinformata. Nesse caso, trata-se mais de um superusuário do que de um pesquisador/desenvolvedor.”

O ideal, diz ele ainda, para contornar as dificuldades relacionadas às habilidades concentradas em um único profissional, é formar equipes multidisciplinares e valorizar as habilidades especificas de cada um. “Nesse sentido, uma caraterística primordial de um bom profissional é saber se adaptar a situações novas, ser receptivo, saber escutar, ser motivado, ter inteligência social e paciência.”

Compartilhe: