A cada ano são realizados nos Estados Unidos 46,5 milhões de cirurgias e outros procedimentos invasivos, incluindo aproximadamente 5 milhões de endoscopias digestivas.

Cada um destes procedimentos envolve o contato de um instrumento cirúrgico ou equipamento com o tecido de um paciente ou a membrana mucosa.

A desinfecção ou a esterilização inadequada de um equipamento ou instrumental representa o risco da quebra da barreira e também o risco da transmissão pessoa a pessoa, como por exemplo o vírus da hepatite B e mesmo a transmissão de patógenos ambientais como a Pseudomonas aeruginosa.

Os processos de desinfecção e esterilização são essenciais para se assegurar que os equipamentos e instrumentos cirúrgicos não transmitam microrganismos patogênicos para os pacientes.

Tendo em vista que a esterilização não é necessária para todos os itens utilizados no dia a dia do tratamento dos pacientes, as políticas de saúde devem identificar com base na finalidade de uso para os procedimentos de limpeza, ou a desinfecção/e ou a esterilização quando for indicado.

Claudio Hirai, Farmacêutico-Bioquímico, membro da Farmacopeia Brasileira do Comitê Técnico Temático de Microbiologia, membro da American Society of Microbiology e autor de diversas publicações em revistas científicas, esclarece sobre as questões que envolvem os processos de desinfecção e esterilização.

Quais são as definições de desinfecção e esterilização?
Podemos dizer que a esterilização descreve um processo que destrói e elimina todas as formas de vida microbiana utilizando processos físicos ou químicos. A desinfecção é o processo físico ou químico que destrói a maioria dos microrganismos patogênicos de objetos inanimados e superfícies, com exceção de esporos bacterianos, podendo ser de baixo, intermediário ou alto nível.

Como se caracteriza a desinfecção de nível intermediário?
É um processo físico ou químico que elimina microrganismos patogênicos, micobactérias, a maioria dos vírus e fungos de objetos inanimados e superfícies.

E a desinfecção de alto nível?
É um processo físico ou químico que destrói todos os microrganismos de objetos inanimados e superfícies, exceto um número elevado de esporos bacterianos.

Qual a classificação dos produtos e equipamentos?
Podemos dividir da seguinte forma:
– Críticos: são os utilizados em procedimentos de alto risco, que penetram tecidos e órgãos, incluindo o sistema vascular e cavidades normalmente estéreis (exemplos: instrumentos cirúrgicos, próteses vasculares, cateteres de angioplastia, cateteres vesicais, seringas, agulhas, fórceps, implantes etc.) e requerem esterilização para o uso.
– Semicríticos: são aqueles que entram em contato com a pele não íntegra ou com a mucosa do paciente, requer desinfecção de alto nível ou esterilização. Podemos citar como exemplos os equipamentos para assistência respiratória, endoscópios, colonoscópios, equipamentos para broncoscopia, cânulas endotraqueais etc.
– Artigos não críticos: se referem a todos os instrumentos que entram em contato com a pele íntegra. Neste caso, a pele saudável age como uma barreira contra a penetração microbiana, como resultado o nível de desinfecção necessário é menor. De maneira geral, uma limpeza adequada e secagem são suficientes.  Alguns exemplos destes tipos de artigos que podemos citar são as incubadeiras, móveis, carrinhos, roupas e artigos de vestiário, esfingomanômetros etc.

Se os equipamentos e os instrumentos foram limpos e esterilizados de maneira adequada, isso é eficiente?
Os fabricantes dos instrumentos e equipamentos devem assegurar que os mesmos possam ser limpos e esterilizados e/ou desinfetados e que os processos sejam validáveis. Com relação à validação da limpeza surgiram nos anos recentes testes que permitem a verificação dos resíduos como a proteína, hemoglobina e carbohidratos. Existem kits comerciais que executam estes testes ou equipamentos que fazem a detecção de ATP como o Biotrace. Não estão definidos ainda os limites aceitáveis pelos diferentes métodos existentes, para a presença de hemoglobina, proteínas endotoxinas e carbohidratos em instrumentos e equipamentos.

Quais os critérios de aceitação para a validação de limpeza?
Nós podemos sugerir o que segue:
– Inspeção visual – limpo.
– Microrganismos – redução mínima de 3 ciclos log. do número inicial de contaminantes.
– Nível residual de proteína – < 6,4 mcg.
– Nível residual de hemoglobina – < 2,2 mcg.
– Nível residual de carbohidrato – < 1,8 mcg.
– Nível residual de endotoxina – <2,2 mcg.

Qual o objetivo da validação da desinfecção?
O objetivo da validação é demonstrar que os microrganismos contaminantes são eliminados por processos físicos ou químicos. O procedimento deve descrever a inoculação do instrumento ou equipamento com uma suspensão padronizada de microrganismos e material orgânico. Sugere-se utilizar os seguintes microrganismos:
Escherichia coli ATCC 8739
Staphylococcus aureus ATCC 6538
Pseudomonas aeruginosa ATCC 9027
Candida albicans ATCC 10231
Aspergillus niger ATCC 16404

Quais outras medidas são necessárias?
Submeter o material ao processo de limpeza/desinfecção utilizando agentes químicos e/ou calor inferior a 100ºC; realizar as contagens bacterianas verificando a recuperação microbiana das cepas inoculadas.

Quando se considera que a limpeza/desinfecção está válida? 
Poderemos considerar a limpeza/desinfecção validada se após o processo o equipamento/instrumento estiver visualmente limpo, se for verificada a redução de 6 ciclos log. do número de contaminantes iniciais. E se houver a ausência de resíduos de desinfetantes analisados por diversas técnicas analíticas disponíveis, como por exemplo a cromatografia líquida de alta eficiência, espectrofotometria de ultravioleta ou a análise do carbono orgânico total (TOC). A validação da esterilização deve demonstrar e garantir que o instrumento/equipamento esteja livre de contaminantes microbianos viáveis. Além disso, o processo deve demonstrar que o nível de garantia de esterilidade seja atingido (SAL- sterility assurance level). O SAL indica a probabilidade de 1:1000.000 de que o instrumento/equipamento não esteja estéril. O equipamento deve ser também qualificado pelo fabricante, a performance deve ser verificada e as cargas devem ser validadas, utilizando indicadores biológicos e verificando a esterilidade os instrumentos e equipamentos. Se todos os critérios forem atendidos, o procedimento estará validado para o uso.

 

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