Há cerca de dois anos iniciou-se um movimento de alguns setores do ambiente laboratorial, que apresentaram veementes sugestões no sentido de que os procedimentos laboratoriais pudessem ser realizados a qualquer hora, não importando a situação alimentar do cliente.

Naquela ocasião a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas adotou atitude de cautela, informando a seus associados de que, sabidamente existiam parâmetros não influenciados pelo jejum e que, para outros, de acentuada solicitação havia comprovadamente exigência de jejum.

Que nos conjuntos de erros pré-analíticos, os mais impactantes na cadeia das não conformidades, os exercícios físicos, a alimentação e a administração de medicamentos eram os maiores contribuintes na alteração dos parâmetros. Que exames prescritos em que não havia necessidade de jejum estavam quase sempre mesclados com outros em que o jejum seria obrigatório. Contrassenso e perda de tempo realizar duas coletas em procedimentos laboratoriais provenientes de atendimento ambulatorial.

Concluía a SBAC em sua nota oficial julgar temerária qualquer modificação nas recomendações do jejum, enquanto não existirem comprovações inequívocas e convincentes da não influência do fator alimentação nos resultados dos exames.

Recentemente, há uns trinta dias, este tema foi retomado com muita força em que também a grande imprensa foi acionada.

Sabe-se perfeitamente que quando os “canhões” da mídia são trazidos às discussões acontecem distorções, novas opiniões são formadas, como se todas as novidades constituam as mais confiáveis das verdades. A Veja desta semana, edição 2500, de 19 de outubro de 2016, publicou na sessão sobe e desce à página 38:

“Sobe
Hemograma
Associações médicas brasileiras decidiram que não é necessário ficar doze horas em jejum para ficar doze horas em jejum para fazer testes de sangue de colesterol. Os laboratórios já podem adotar a orientação”.

É evidente que não é assim que as polêmicas científicas devem ser discutidas e solucionadas. Provocar a imprensa leiga para divulgar informações científicas da mais alta importância significa trazer toda a população à discussão de assuntos que estão afeitos somente à comunidade científica. Após o consenso, difícil de ser obtido, chega o momento de informar a todos. Todas as novas informações devem ser democratizadas com todos, menos as distorcidas ou mal resolvidas.

Está mais do que claro e evidente que os exames laboratoriais podem ser divididos em dois grandes grupos. O hospitalar, onde não existe hora, nem jejum para as avaliações, pois nesse caso estão incluídas as emergências, urgências, UTIs, clínicas cirúrgicas, oncológicas e outras, sabendo-se também que os profissionais nelas envolvidos têm pleno conhecimento para avaliar os resultados dos exames colhidos a qualquer hora, em qualquer situação com jejum ou sem, além do estresse e interferências medicamentosas, que como é sabido, também interferem nos resultados laboratoriais.

No atendimento ambulatorial, nas situações de consulta médica com solicitação de exames laboratoriais, como componentes de uma avaliação, em que usualmente o cliente retornará após decorridos uma semana ou dez dias, talvez até mais dependendo do que foi solicitado, não existe necessidade alguma de que o jejum não seja preservado, até para que se possa preservar um trabalho de mais de meio século de evolução e  notável capacidade orientativa – Valores de Referência -, que auxiliam  e conduzem as atitudes médicas ao diagnóstico de 70% das solicitações clínicas.

Esses dados que acompanham todos os laudos laboratoriais, com exceções mínimas foram pesquisados e estudados para a situação de jejum. Apesar de poucas, algumas são muito modificadas pela alimentação e nos valores limítrofes a confusão ficará imediatamente estabelecida.

Portanto, não pode ser desprezado um trabalho que iniciou há mais de cinco décadas e que até os dias de hoje vem sendo um notável guia de informações e que todos os laboratórios podem dispor e atualizar periodicamente.

Um novo foco de discussão está sendo incubado, mas mantido estritamente dentro dos canais científicos são constatações de que níveis elevados de triglicerídeos, após a alimentação, podem aumentar o risco cardiovascular e, desta forma, seria mais adequada a coleta de material em ausência de jejum.

Esta posição é defendida por membros importantes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, que preconizam esta conduta.

Entretanto, a SBC mais uma vez está buscando o consenso conjunto com a SBAC, SBPC/ML, ABBM, numa inequívoca demonstração de reunião de forças e cabeças para maiores e melhores decisões.

O consenso definirá o que for melhor e mais adequado, assim como, desta mesma forma, é que foram avaliados os novos valores de referência da V Diretriz das Dislipidemias publicada em 2013.

Está previsto para janeiro de 2017 a publicação de um documento/posicionamento das Sociedades científicas em relação a esta pauta.

Entretanto, a SBAC já publicou em seu site nota de esclarecimento e nesta semana estará publicando novas recomendações.

É sabido por toda a comunidade laboratorial que a eliminação do jejum pode não alterar significativamente alguns parâmetros, mas em função de lipemias, mesmo que discretas ou moderadas, interferem em algumas metodologias.

De qualquer forma, como no parecer da SBAC de dois anos atrás tudo ainda deve ser levado com a máxima cautela, preservados os casos urgentes, e considerar que a segurança do paciente é uma necessidade muito mais premente do que o melhor aproveitamento dos horários e dos espaços físicos dos laboratórios.

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Irineu Grinberg
Publicado por Irineu Grinberg

Irineu Grinberg é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC). Email: irineugrinberg@gmail.com

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