Nos últimos meses, muito tem se discutido sobre o uso de animais em testes de novos medicamentos. Para que não aconteçam pré-julgamentos e precipitações, é necessário conhecer o fluxo de desenvolvimento de um novo fármaco, pois, com certeza, existe um movimento cientifico dentro do setor farmacêutico e também de agências de regulamentação como o FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos que estão trabalhando para diminuição de testes em animais, entretanto ainda não há uma substituição por completa deste procedimento.

Podemos dividir em três etapas, o fluxo de desenvolvimento de um novo fármaco.

A primeira fase, a fase de pesquisa, envolve a descoberta de um “lead” ou candidato, que seria uma molécula química oriunda de síntese orgânica (na maioria dos casos), produto natural, ou outra fonte de estudo. Esta molécula deve apresentar uma atividade farmacológica com o alvo terapêutico, por exemplo, inibição ou indução de uma enzima responsável por uma reação bioquímica ligada um processo inflamatório ou de multiplicação de células cancerígenas.

Normalmente este teste de atividade é realizado in vitro e, em um primeiro momento, com células específicas crescidas em laboratório e, em um segundo momento, estes testes podem ser realizados em animais em ambiente controlado por um rígido sistema de segurança.

Após a comprovação da eficácia da molécula candidata, os ensaios de ADME in vitro são realizados para conhecimento das propriedades biofarmacêuticas, ou seja, seu potencial de:

– Absorção (via oral), ou seja, se o fármaco atravessará o trato gastrointestinal e atingirá a corrente sanguínea.

– Após atingir a corrente sanguínea, qual será o seu volume de Distribuição do fármaco, ou seja, este irá chegar ao alvo terapêutico

– Qual será a taxa de Metabolismo hepático e consequentemente sua Eliminação.

Estas são informações muito importantes para a equipe de química medicinal, que avalia estes resultados e através de um estudo racional cientifico decide se este fármaco deve continuar sua jornada de desenvolvimento ou não, ou se a molécula deve ser modificada para adequação das propriedades biofarmacêuticas.

Ainda nesta fase de pesquisa o novo candidato é submetido a testes de genotoxicidade, mutagenicidade, toxicidade, entre outros, onde há alternativas de testes in vitro que são rápidos e menos onerosos ao fluxo de desenvolvimento do novo fármaco.

Após estes testes, este candidato entra na segunda fase, a fase pré-clinica, com testes em animais.

Cabe enfatizar, que a partir desta fase, o ambiente é muito controlado (FDA é muito rigoroso nos Estados Unidos) e todo documentado por procedimentos de BPL (Boas Práticas de Laboratório) e BPC (Boas Práticas Clínicas).

Nesta fase são realizados testes em animais em ambiente controlado, como dito, para conhecimento de eficácia, dose adequada, toxicidade, propriedades in vivo de farmacocinética, biodisponibilidade, metabolismo e outros.

A terceira fase, é conhecida como fase clínica em humanos e é dividia em três:

– Fase 1 (em humanos voluntários sadios), onde são realizados testes de farmacocinética e clínica.

– Fase 2 (em humanos voluntários doentes), onde são realizados testes com um foco na eficácia.

– Fase 3 (em humanos voluntários doentes) que é similar a Fase 2, entretanto o número de voluntários pode chegar a 5000 em populações diferentes/heterogêneas.

Após todos estes testes e mais outros de segurança, formulação, qualidade, marketing etc., o medicamento é lançado no mercado. Vale a pena ressaltar que a porcentagem de sucesso de um medicamento é de 1 a cada 10.000 compostos pesquisados, que os gastos para desenvolvimento de um novo medicamento podem chegar a US$ 1 bi e que a pesquisa pode levar de 8 a 10 anos.

Isso posto, todas as fases do fluxo de desenvolvimento de um novo fármaco, são realizadas com racionalidade cientifica, controle e responsabilidade, e este fluxo esta bem consolidado.

Não há uso ou teste indevido de medicamentos em animais e humanos.

Ainda assim, existem pesquisas para minimizar o uso de animais como é o caso do guia do FDA de 2006 que recomenda a microdose para testes diretos em seres humanos.

O guia recomenda a administração direta de doses subfarmacológicas, para estudos de farmacocinética e metabolismo, em seres humanos. A dose administrada é 1/100 avos da dose calculada na qual proporciona o efeito farmacológico, que pode chegar no máximo de 100 microgramas (ug).

Com isso não existem efeitos tóxicos ou nocivos, entretanto necessitamos de tecnologias sensíveis como a espectrometria de massas, para determinar esta baixa quantidade de fármaco e seus metabolitos no sangue.

Ainda é cedo para que esse teste possa substituir 100% dos testes realizados em animais, mas é um começo e pode ser o caminho para que, no futuro, possamos desenvolver um novo fármaco, com eficácia e segurança, sem a necessidade de utilizar animas na fase de pesquisa.

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biodisponibilidade, biofármaco, fármaco, farmacocinética, FDA, testes em animais

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Daniel Lebre
Publicado por Daniel Lebre

Daniel Temponi Lebre é formado bacharel em química pela Oswaldo Cruz e mestre pelo IPEN-USP. Com experiência de mais de 13 anos em espectrometria de massas, trabalhou durante nove anos para a empresa AB Sciex no Brasil e Canadá. Fez parte da equipe de projetos do IPEN-USP, Novartis e Ceimic. Responsável técnico do CEMSA desde 2009, quando iniciou as pesquisas em ADME in vitro financiadas pela FAPESP (PIPE I e PIPE II) e FUNCET. Durante sua experiência na AB Sciex foi especialista e responsável pelas aplicações de metodologia LC/MS/MS para pequenas moléculas nos mercados farmacêutico (novas drogas), alimentos e bebidas, forense e ambiental. Era responsável pela coleta de amostras, geração e interpretação de análises, mas principalmente pelo desenvolvimento de novas metodologias analíticas. Desde então é referência no mercado como disseminador do conhecimento de espectrometria de massas, tendo treinado mais de 100 alunos, até o momento, via cursos oferecidos pela própria empresa. É membro e conselheiro da Sociedade Brasileira de Espectrometria de Massas desde 2005. Já ministrou como professor convidado cursos na USP, UNIFESP e IPEN desde 2007.

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