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O transporte de material biológico é classificado como uma das atividades críticas em laboratórios clínicos e, portanto, geram impacto diretamente na qualidade dos resultados. foto: freedigitalphotos

Talvez – e creio que, muitos que lerem este artigo irão se identificar com os fatos a seguir. Sou da época em que, para termos um laudo correto, bastava colhermos as amostras e realizá-las, claro, com os processos de qualidade implantados. Ocorre que, nesta época que cito (década de 1980), a ação “realizar exame” exigia muito conhecimento e podemos dizer “confiança” na equipe, nos processos e nos materiais, incluindo reagentes, que podíamos contar.

As equipes necessitavam conter outros conhecimentos em comparação aos atualmente necessários como macetes e muita prática, pois era necessário saber literalmente preparar os reagentes para o uso, como era o caso da orto-toluidina nas dosagens não enzimáticas da glicose, assim como boas lembranças de prepararmos as seringas para coleta venosa, onde fervíamos as seringas de vidro e utilizávamos os famosos garrotes de borracha (que por sinal, os mesmos eram para fazermos nossos estilingues). Pois é, dentre essas boas e saudáveis lembranças, o tempo fez seu papel, transformando, sem perder nada, sem criar nada, somente transformando conforme nosso colega Antoine Laurent Lavoisier já dizia há mais de 200 anos.

Nessa transformação, nossos conhecimentos necessariamente foram ajustados para o novo modelo de Medicina Laboratorial, motivados pelas inovações, quantidade da demanda de exames, necessidade na agilidade dos laudos, responsabilidades que não conhecíamos até então, como é o caso do transporte.

Na época, carros faziam transportes de lá para cá, dentre unidades de um laboratório, com motoristas que, por anos, eram responsáveis e amigos daquelas unidades. Mas o tempo mudou. Necessariamente processos, normas, protocolos e condutas foram implantados e, mais do que isso, passaram a ser indispensáveis para lutarmos a boa batalha contra o fato que assola até hoje nossa paz laboratorial: mais de 70% dos erros laboratoriais estão localizados na fase pré-Analítica.

Este fato é comprovado porque é nesta fase que temos muito mais mão de obra, menos processos automatizados e, portanto, mais chances de erros. E o transporte assumiu seu papel de extrema importância neste cenário. Como digo nos cursos aplicados aos nossos biocondutores (profissionais de transportes especializados na Saúde): “o que adianta um ótimo preparo do paciente, uma ótima coleta, um ótimo armazenamento e acondicionamento se o transporte e/ou transportador colocar tudo a perder. Vocês, biocondutores, são atores principais na fase pré-analítica”!

A gestão de logística passa a ser matéria obrigatória em nosso currículo e não basta somente sabermos fazer exames; em tempos atuais é necessário que sejamos responsáveis em garantir a estabilidade e a integridade do material transportado.

O transporte de carga (material biológico é nossa carga) é classificado como uma das atividades críticas em laboratórios clínicos e, portanto, geram impacto diretamente na qualidade dos resultados. Por este fato, toda a atenção possível deve ser direcionada para a correta gestão deste mais recente setor laboratorial: o transporte.

Atualmente temos normas, requisitos e processos sendo fiscalizados por agências federais, na intenção de padronizar o transporte de materiais biológicos e meu intuito será, como colunista do Portal LabNetwork, ajudá-los a entender essas normas, resoluções e aplicabilidade em nosso setor de forma simples, porém completa e responsável.

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Cristhian Roiz
Publicado por Cristhian Roiz

Cristhian Roiz é biomédico com mais de 27 anos de experiência e especialista em Análises Clínicas. Possui MBA em Logística para a Saúde pela FGV, é Auditor da ISO 9001 e conferencista sobre normas, regulamentações em transporte de materiais biológicos em congressos nacionais e faculdades. Tornou-se especialista nas regulamentações da ANVISA e ANTT, RDC 20 e ANTT 420, tendo sido convidado por ambas as agências a ser revisor participativo por tais resoluções desde 2014 e atualmente referência nacional em tais assuntos. É CEO da BioCarga. E-mail: cristhian@biocarga.com. Site: www.biocarga.com.

Este conteúdo é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do LabNetwork.