O processo inovador de estruturas poliméricas foi testado para a realização de diagnóstico de doenças infecciosas. Por: Renata Fontoura (ICC/Fiocruz Paraná)

Concedida pelos Estados Unidos em fevereiro de 2017, a primeira patente internacional de um produto desenvolvido pelo Instituto Carlos Chagas (ICC/Fiocruz Paraná) em parceria com o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), reforça a importância da inovação no trabalho realizado pelos grupos de pesquisa no ICC. O processo inovador de estruturas poliméricas – cadeias sequenciais de um determinado material, que podem ser biológicas ou artificiais – foi testada para a realização de diagnóstico de doenças infecciosas e aguarda a avaliação de depósitos patentários submetidos a órgãos de proteção do Brasil, Coreia do Sul, China e ao Instituto Europeu de Patentes.

Em entrevista, o pesquisador do Laboratório de Genômica Funcional do ICC, Leonardo Foti e o pesquisador da UFPR, Cyro Ketzer Saul, falam sobre o desenvolvimento da pesquisa e sobre o processo que resultou na conquista.

Qual foi o ponto de partida para o desenvolvimento desse produto?

Leonardo Foti – Em 2007, trabalhávamos em um projeto de cooperação entre ICC e IBMP para o desenvolvimento testes diagnósticos com a utilização de microesferas de poliestireno. O uso deste tipo de material para este fim não é uma novidade, está disponível comercialmente, e apresenta algumas características em sua superfície que permitem que seja realizada a ligação das microesferas com diferentes tipos de materiais. Nesta época, já tínhamos colaboração com o Cyro, que tem muita experiência no desenvolvimento de novos materiais para aplicação em sensores físicos e biológicos. Durante a apresentação de um trabalho que este estava desenvolvendo nós propusemos um desafio.

Cyro Ketzer Saul – O grande desafio era adequar a superfície do material, que necessitava da presença da carboxila, para que fizesse a ligação com o material biológico. Precisávamos de algo bem específico. Depois de buscar alternativas e parcerias, chegamos à equipe do pesquisador da UFRGS, César Liberato Petzhold, que desenvolveu a base para o material que utilizaríamos após uma adequação. Quando começamos a realizar os testes biológicos, percebemos que, além do material preparado para reagir, o material que não recebeu essa mesma preparação, também reagiu. Isso foi uma grande surpresa por um momento negativa, porém, logo em seguida percebeu-se a oportunidade em nossas mãos.

Então, vocês tiveram um resultado inesperado neste momento?

Leonardo Foti – Sim. O material que não havia sido preparado para reagir, reagiu. Tratava-se de uma esfera de poliestireno pura que reagia ao material biológico. Buscamos entender por que isso estava acontecendo, mas sempre enxerguei esse resultado inesperado como uma oportunidade. Observamos que não era necessário realizar o passo químico para ligar à molécula biológica ao poliestireno. Essa foi uma descoberta surpreendente.

Cyro Ketzer Saul – Em 2008 descobrimos o porquê desse resultado, mesmo com os químicos dizendo que aquela reação não era possível. Foram dois anos para que conseguíssemos provar que se tratava de uma novidade. Apenas em 2010 conseguimos fazer o depósito patentário desse material.

Qual é o diferencial desse produto? Qual o impacto dessa descoberta?

Cyro Ketzer Saul – Nossa descoberta, em relação aos outros materiais que estão no mercado, tem como diferencial a otimização do processo, o que acaba otimizando custos também. Além disso, o material que desenvolvemos tem um rendimento e uma produtividade muito alta. A sua utilização reduz significativamente o preço final de produtos fabricados pelas empresas da área.

Leonardo Foti – Desenvolvemos um material que pode servir para várias aplicações, não só para as microesferas, mas também para fibras. Comprovamos sua eficiência, dentro de nossa expertise, com a realização de testes diagnósticos. Mas o material também pode ser utilizado para filtragem de compostos industriais, por exemplo. Para a saúde pública, isso pode significar uma redução de importação significativa. Pois, se substituirmos o produto da concorrência, a diferença de preço é muito grande, trazendo economia. Além disso, estamos retro-alimentando a cadeia de pesquisa, buscando parceiros externos e temos a possibilidade de fornecer esses insumos internamente na Fiocruz, inicialmente para pesquisa.

Como foram esses dois anos de trabalho para comprovar que se tratava de uma novidade?

Leonardo Foti – Uma equipe de cerca quatro pessoas trabalhou diretamente na caracterização, estudando como essa reação acontecia. Exploramos bastante todas essas variáveis e por isso nossa patente está bem coberta. Foi minha primeira experiência com propriedade intelectual, o Cyro já tinha experiências anteriores. Aprendi muito, principalmente na definição dos parâmetros de avaliação, como a grande cobertura para garantir que ninguém fizesse algo parecido. Não foi um processo fácil, mas tivemos um alinhamento da própria Fiocruz, que ofereceu cursos, dentro desse contexto da propriedade intelectual. A Coordenação da Gestão Tecnológica da Fiocruz (Gestec) teve um papel importante. Há esse movimento de trazer essa cultura para o pesquisador, que precisa entender que não é porque há patente que o produto vai tornar-se uma inovação, para que isso aconteça é preciso que ele seja introduzido no mercado, senão é uma mera invenção. Os profissionais dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) têm uma visão maior nesse sentido, mas o pesquisador precisa arriscar, passar por todo esse processo, investir tempo e recurso. Os NITs têm o seu papel, mas não consegue desempenhar sua função se o pesquisador não participar, é um trabalho em conjunto.

Cyro Ketzer Saul – Trabalhamos em paralelo, nós e a Gestec. Eles tiveram dificuldades, principalmente na busca para saber se havia algo parecido já patenteado e neste aspecto fiz um trabalho minucioso para que entregássemos algo sólido. Outro aspecto é estar atento para cumprir os requisitos de confidencialidade. Tivemos cuidado até no momento da internacionalização da patente, de escolher os países, tudo isso foi discutido. Nós tivemos muito aprendizado.

Cultura de inovação ganha mais força

Para a coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica do ICC, Karin Goebel, a concessão da patente pelos Estados Unidos mostra o amadurecimento do trabalho de desenvolvimento tecnológico dos pesquisadores do ICC. “Sem dúvida, é uma grande conquista. Para que uma patente seja concedida nos EUA, ela passa por um processo muito rigoroso, o que valoriza e mostra a qualidade e o ineditismo do trabalho”, reforça.

Esclarece que o objetivo da patente é trazer maior possibilidade de retorno do investimento da pesquisa, pois se torna um bem mais facilmente negociável para transferência da tecnologia para empresas ou instituições capazes de colocar o produto no mercado. Além disso, traz uma imagem clara de seriedade, protege de cópias mal feitas e gera maior chance de sucesso do conhecimento gerado nas pesquisas se tornar de fato um produto utilizado pela sociedade, especialmente para resolver problemas de saúde pública, objetivo fim da Fiocruz. Explica que a patente não deve ser buscada para incremento de currículo do pesquisador ou apenas como indicador de produtividade, pois seu depósito e manutenção anual gera custos para a instituição.

Segundo Karin, a participação dos pesquisadores e a percepção da importância da proteção no início de um projeto são fundamentais. “Mesmo que o pesquisador ainda não vislumbre a aplicação de uma invenção no início de seu projeto, ela poderá ter uma aplicação no futuro. Por isso, é imprescindível que ele procure o NIT para fazer uma avaliação inicial, para que seja possível proteger a invenção no momento certo.  O NIT também orienta os pesquisadores durante o desenvolvimento do projeto e alerta para aspectos como a codificação do cerne da invenção na divulgação dos resultados”, explica.

A coordenadora ressalta ainda que há um mito de que a proteção dos resultados é incompatível com a publicação em periódicos científicos. “Acredito que esse deva ser um dos aspectos que faz com que o pesquisador não busque o processo de proteção. É preciso deixar claro que no momento em que a patente é depositada já é possível publicar os resultados em qualquer meio, não sendo necessário esperar a concessão da patente, etapa esta que pode levar anos”, esclarece.

Atualmente, o ICC tem cinco patentes depositadas, uma concedida. Além disso, são cinco invenções em estudo de viabilidade patentária e 2 patentes em processo de co-titularidade. Também foi desenvolvido pelo Instituto o primeiro software licenciado pelo Fiocruz.

Fortalecimento da rede de inovação da Fiocruz

O resultado do trabalho realizado pelo grupo do ICC, em parceria com o IBMP, a UFPR e a UFGRS, gerou interesse de pesquisadores de outras unidades da Fiocruz e cooperações estão sendo firmadas. Foi o caso de um dos grupos de pesquisa do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas), que desenvolvem um kit diagnóstico diferencial para doença de Chagas e Leishmaniose. “Quando conhecemos a tecnologia desenvolvida no Paraná, vimos uma oportunidade de utilizá-la no projeto que um de nossos grupos, aqui da Fiocruz Minas, desenvolve. Trata-se de insumo importantíssimo e fizemos essa ponte. Estamos construindo um acordo de cooperação para dar prosseguimento e muito animados por se tratar de um processo todo desenvolvido dentro da Fiocruz”, ressalta a representante do Núcleo de Inovação Tecnológica da Fiocruz Minas, Ana Paula Granato.

Outro grupo que demonstrou interesse foi o liderado pelo pesquisador Luis André Mariúba, do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILDM/ Fiocruz Amazônia). “Conheci o trabalho através de uma apresentação do NIT-ICC em uma das reuniões da GESTEC, a qual faço parte pela coordenação do NIT-ILMD. Também desenvolvo no ILMD pesquisas que necessitam realizar separação de biomoléculas através de cromatografia. Logo, a tecnologia desenvolvida pelo grupo do pesquisador Leonardo Foti poderá ser utilizada como matriz para a realização destes experimentos de modo menos oneroso e com a qualidade necessária. Estou no aguardo da concretização desta parceria”, finaliza Luis. Com informações da Fiocruz

Tags:

diagnóstico de doenças infecciosas, estruturas poliméricas, Instituto Carlos Chagas

Compartilhe: