dicionário_freeimagesÉ importante para um cientista saber falar várias línguas? Em minha opinião sim e, em meu caso específico, isso acabou direcionando bastante a minha carreira. Dominar outras línguas pode abrir portas. Eu nasci na União Soviética e a língua na qual converso com os meus familiares mais próximos é o russo. Logo, quando eu tinha 3 anos, mudamos para Israel, onde aprendi o hebraico. Aos 7 anos, meus pais vieram para o Brasil, assim aprendi o português. E, aos 14 anos, quando eles saíram para seu ano sabático na Espanha, aprendi o espanhol. Somente mais tarde, já morando nos Estados Unidos, aos 24 anos, aprendi a falar inglês.

O inglês, ou melhor, a falta dele, me direcionou desde o início da minha carreira. Minha relação com o inglês era tão ruim que eu acabei no curso de Biomedicina em Ilhéus, na Bahia, em parte devido ao fato de não saber falar inglês. Na época do vestibular, eu planejava cursar Medicina para depois migrar para a Ciência e poder trabalhar pesquisando novas curas. Como em Fortaleza, naquela época, não havia curso de Biomedicina, eu não sabia que tal curso existia. Só fui descobri-lo quando meus pais, querendo me inscrever no vestibular para o curso de Medicina da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), descobriram que a prova de língua estrangeira era, obrigatoriamente, de inglês. Assim, eles me inscreveram no vestibular para Biomedicina que, pela descrição na internet, parecia o curso dos meus sonhos.

Com o sonho de um dia virar cientista, logo no início da minha vida universitária percebi que o inglês, amplamente falado no mundo da Ciência, era a língua fundamental a aprender. E o meu nível de domínio da língua era tão baixo que, quando tentei me inscrever em vários cursos de inglês em Ilhéus, todos me ofereceram cursar o nível 1 (o nível mais baixo, que só tinha crianças com menos de 10 anos). Assim, acabei no CCAA, onde um amigo meu dava aula. Ele me deixou começar no nível 3 (turma com crianças de 13 anos), o que não foi muito bom, pois eu não entendia nada o que acontecia em classe.

Bom, ler artigo científico em qualquer língua não é um grande problema, pois estes artigos usam bastante a linguagem científica, que é universal. Mesmo assim, lembro que numa aula de Sorologia, a professora distribuiu artigos científicos pra todos da turma ler e apresentar. Todos receberam artigos em inglês, menos eu. Fui o único a apresentar um artigo que tinha sido publicado em português em alguma revista brasileira.

A  falta do inglês me limitava bastante, não só na UESC. Quando eu ia para congressos internacionais e apresentava os meus trabalhos, não conseguia conversar bem com pesquisadores estrangeiros, pois a maioria falava somente em inglês. Assim, em todos os congressos eu escolhia ir em palestras de cientistas que falassem alguma das línguas que eu sabia (russo, hebraico, espanhol ou português). Isso me limitava bastante. Por outro lado, me levou a conhecer o meu futuro orientador de doutorado, professor Osvaldo Delbono, argentino, que, claro, falava espanhol. Delbono me convidou a trabalhar com ele nos Estados Unidos, acredito que devido ao fato de eu ter explicado bem a ele minhas ideias científicas em espanhol, lógico.

Entrar no doutorado nos Estados Unidos sem saber falar inglês deve ser impossível, isso estava claro para mim. Alem disso, para entrar no doutorado o aluno precisa ter uma nota alta no TOEFL (exame que tem o objetivo de avaliar o potencial individual de falar e entender o inglês em nível acadêmico) e também no GRE (teste muito mais difícil do que o TOEFL e cuja nota é utilizada como critério de admissão nos programas de doutorado dos Estados Unidos). Assim, o meu objetivo já nos primeiros dias nos Estados Unidos era aprender a falar inglês o mais rápido possível. Tive sorte por ter bastante apoio do professor Osvaldo, que me proibiu de falar em espanhol no laboratório, a língua do laboratório era só inglês. Isso me ajudou, pois era forçado a aprender palavras em inglês para me comunicar com outros membros do laboratório. Alem disso, a cidade onde eu morava, Winston-Salem, não tinha muitos brasileiros nem latinos, o que também me forçou a aprender inglês para sobreviver.

No início, eu comprei um MP3 e passava o dia todo fazendo experimentos de eletrofisiologia, escutando a rádio nacional americana, que transmitia notícias em inglês o dia todo. Além disso, tinha um colega de laboratório, Jackson Taylor, americano, que só sabia falar em inglês. Corríamos juntos à noite depois dos experimentos, e ele continuava conversando comigo a meu pedido, mesmo que eu não entendesse nada. Eu tinha dito a ele que em algum momento ia começar a entender o que estava dizendo, assim, que continuasse falando.

Esses esforços resultaram em um rápido aprendizado do inglês, que evoluía a cada dia que passava. Em menos de um ano eu já tinha tirado boas notas no TOEFL e no GRE e estava começando o meu doutorado em neurociência na Wake Forest University sob orientação do professor Osvaldo Delbono.

Para publicar o meu primeiro artigo científico novamente o idioma foi importante. Nesse artigo utilizamos um camundongo transgênico chamado Nestin-GFP que conseguimos de um pesquisador renomado do Cold Spring Harbor Laboratory, doutor Grigori Enikolopov, que falava russo. Assim, o fato de eu saber falar russo nos aproximou e favoreceu este trabalho em colaboração.

No meio do meu doutorado apresentei os nossos trabalhos em um congresso interno do departamento, do qual participou um professor convidado que é diretor de um centro importante no Albert Einstein College of Medicine de Nova York. Este professor gostou muito da minha apresentação e, quando veio conversar comigo, descobri que era israelense — assim conversamos em hebraico. E parcialmente através dele conheci pessoalmente o meu mentor de pós-doutorado, professor Paul Frenette.

Finalmente, claro que voltar ao Brasil e iniciar o meu próprio laboratório não seria possível se eu não falasse português.

Hoje, depois de alguns anos de carreira, a minha recomendação é a seguinte: aprenda novas línguas, quanto mais melhor, para seguir adiante. E principalmente o inglês, que é fundamental na ciência, pois você também pode acabar trabalhando com um argentino, um americano, um russo, um israelense e um canadense.

Este artigo apareceu originalmente publicado em inglês na Nature Biotechnology.

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Alexander Birbrair
Publicado por Alexander Birbrair

Alexander Birbrair é Professor Adjunto do Departamento de Patologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Possui graduação em Biomedicina pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), doutorado em Neurociencia pela Wake Forest University, Carolina do Norte, EUA e pós-doutorado em Biologia Celular no Albert Einstein School of Medicine em Nova York, EUA. Tem experiência na área de Biologia e Genética Molecular, Farmacologia, Fisiologia, Patologia, Biotecnologia e Biologia Celular. E-mail: alexbirb@gmail.com

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