Quando comemos um colorido prato de salada ou um delicioso churrasco, geralmente não nos damos conta da complexa cadeia de produção por trás dos alimentos. Não estou falando de procedimentos como preparo do solo, plantio, controle de pragas, colheita, abate e transporte, mas de uma prática que tem, possivelmente, mais de 9 mil anos e é tão antiga quanto a própria agricultura: o melhoramento genético.

Os cerais, carnes e verduras que fazem parte da nossa alimentação não têm a mesma aparência, sabor e nutrientes que tinham há alguns anos. O motivo: ao cultivar plantas e criar animais ao longo dos anos, o homem passou a selecionar e reproduzir os indivíduos com características que melhor atendiam as suas necessidades. Desse modo, os animais e plantas foram se modificando aos poucos. Por exemplo, árvores que rendiam mais frutos ou vacas que produziam mais leite eram selecionadas como reprodutores e utilizadas em cruzamentos, aumentando toda a produtividade daquela cultura.

Um exemplo clássico do melhoramento genético é o aumento da quantidade de açúcar da beterraba. No final do século XVIII, percebeu-se que sua raiz continha 2% de açúcar. Foi iniciado então o trabalho de melhoramento dessa taxa, que chegou a 7%. Napoleão, imperador da França, incentivou o cultivo da beterraba, para livrar a França da dependência da Inglaterra, que tinha o monopólio do açúcar de cana. Isso transformou a beterraba numa das principais culturas nos países de clima temperado do hemisfério norte. Em 1870, sua taxa de açúcar tinha subido para 10%; em 1890 para 14%, e em 1910 para 16%. Hoje, ela é de 20%.

O melhoramento genético pode ser usado para outros fins. Nas plantas eles incluem alterações do sabor e o aumento da uniformidade (para facilitar a colheita), da tolerância ao clima e da resistência a parasitas. Nos animais podem ser melhoradas a habilidade materna, fertilidade, temperamento e maciez da carne, entre outras características.


Melhoramento na observação

Nos primórdios do melhoramento a seleção era feita simplesmente por observação. Ou seja, não havia base científica: o produtor selecionava os reprodutores baseado no que via, como as plantas mais altas na época da colheita, os bois mais pesados na época do abate ou as galinhas que mais botavam ovos em um determinado período de tempo. Também não se consideravam os efeitos secundários dos cruzamentos. Além disso, era impossível prever com precisão que benefícios iriam surgir ao longo das gerações. Apesar de haver resultado na maioria das vezes, a eficiência era muito menor do que a que temos hoje.

 

Melhoramento científico

O melhoramento genético só se aliou à ciência há cerca de um século. Com o maior entendimento sobre polinização e fertilização e com o reconhecimento da importância das descobertas de Mendel, os resultados práticos tiveram avanços significativos. Dessa maneira, foi possível ter maior entendimento sobre os efeitos da seleção genética, predizer ganhos, melhorar múltiplas características simultaneamente e eliminar ou atenuar características indesejáveis.

 

Melhoramento molecular

Atualmente nós podemos “ler” a molécula de DNA de qualquer indivíduo de qualquer espécie no planeta. E considerando que a molécula de DNA é o livro de receita com quase todos os dados necessários para o desenvolvimento de um organismo, essa informação é extremamente útil nos programas de melhoramento. Com a análise do DNA, é possível identificar a região ou as regiões de um ou mais cromossomos e até mesmo o gene ou os genes que afetam uma determinada característica.

Por exemplo, imagine um pesquisador que descubra que as vacas que possuíam uma determinada sequência de genes e/ou regiões genômicas produziam mais leite do que aquelas que tinham uma variação dessa sequência. Essa descoberta poderia ser aplicada em uma fazenda produtora de leite ou de gado leiteiro. Seria possível predizer em um determinado rebanho quais as bezerras que iriam produzir mais leite quando adultas, e assim determinar quais animais seriam vendidos ou descartados e quais seriam utilizados como produtores ou reprodutores.

A leitura do DNA pode ser mais interessante ainda. Se realizada em embriões e sementes, permite que o produtor escolha os indivíduos possivelmente mais produtivos (ou com outras características de interesse) mesmo antes de ele nascer ou ser plantado. Além disso, a leitura do DNA permite predizer características que não podem ser mensuradas. Por exemplo, como seria possível determinar a maciez da carne de um reprodutor sem que ele seja abatido? Ou a produtividade de leite de um touro?

Existem também os organismos geneticamente modificados (OGMs). Eles tiverem seu DNA alterado para melhorar uma determinada característica de interesse econômico ou mesmo adicionar uma característica que não possuíam. Entre os casos mais famosos estão a soja Roundup Ready e o arroz dourado. A primeira, desenvolvida pela Monsanto, é uma soja transgênica que recebeu um gene da bactéria Agrobacterium tumefaciens que confere resistência a herbicidas, resistência essa que a soja não possuía naturalmente. A Roundup Ready aumentou a lucratividade dos agricultores, por necessitar de menos herbicidas e por ter menos impurezas nos grãos colhidos. Já o arroz dourado, desenvolvido pelo International Rice Research Institute, recebeu dois transgenes que permitem uma grande produção de betacaroteno, o precursor da vitamina A, conferindo a ele uma cor alaranjada. Ele foi pensado para cultivo em regiões do mundo em que a população tem deficiência dessa vitamina na alimentação. Os OGMs já são relativamente antigos em nosso dia-a-dia, mas despertam polêmica. Boa parte da população não os compreende bem, assim como os benefícios ou malefícios que possam ter.

Em resumo, não importa o que você gosta de comer e nem se é esse alimento é de produção caseira ou mesmo orgânica: ele é ou já foi geneticamente manipulado. E isso não é ruim. Esse é um dos motivos de termos alimentos mais saudáveis, maior produtividade – o que ajuda a combater a fome no mundo, comidas mais saborosas e aquele chester enorme no natal.

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Eduardo Castan
Publicado por Eduardo Castan

Graduado em Zootecnia pela UNESP de Botucatu (2007), realizou seu mestrado em Genética e Melhoramento Animal pela UNESP de Jaboticabal (2010) e Doutorado em Genética e Melhoramento Animal com foco em sequenciamento de nova geração e bioinformática. Parte deste doutorado foi realizado em Harvard University, Boston- EUA, onde adquiriu experiência na análise de dados de sequenciamento aplicando bioinformática. eduardo.castan@thermofisher.com

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