Há cerca de 10 anos, uma jovem universitária, com belos predicados internos e externos ousou ter descoberto a saída para a execução de testes laboratoriais exatos, baratos e eivados de confiabilidade e criatividade.

Elizabeth Holmes, este é o seu nome, no limiar dos seus 20 anos abandonou a Universidade, onde cursava química.

Raspou todas as economias possíveis e passou a projetar equipamentos laboratoriais os quais poderiam realizar inúmeros procedimentos bioquímicos em poucas gotas de sangue colhidos em papel filtro. Estava, dessa forma, consagrada na rotina laboratorial a mesma forma de coleta de sangue utilizada muitos anos antes em recém-nascidos para a realização do teste do pezinho.

Seu negócio prosperou de forma meteórica e a empresa criada por ela, Theranos, decolou de modo gigantesco, cresceu vertiginosamente e atualmente ocupa um lugar que lhe garante podium entre os maiores laboratórios clínicos dos EUA.

Sua publicidade é extremamente agressiva. Ao serem pesquisados os testes laboratoriais no site da empresa, enxerga-se a descrição do procedimento, os valores cobrados pelo teste e mais ao lado o preço cobrado pela concorrência. Os preços da Theranos são pelo menos 40% inferiores. Os exames laboratoriais que necessitam de sangue total, aqueles que não podem coagular, são realizados em poucas gotas de sangue colhidas da ponta do dedo e colocadas num tubo que mede, no máximo, 1,5 cm de altura.

O lendário Henri Kissinger faz parte do Conselho de Administração da empresa.

Após um convênio ainda experimental com a rede de farmácias Walgreen, a maior dos EUA que poderá realizar as coletas para a Theranos, o valor de mercado da empresa deu um salto fantástico e passou a valer  US$ 9,4 bilhões. Elizabeth possui 51% das ações. Nada que possa atrapalhar a solteira, bonita e inteligente.

É mais do que evidente que, em se tratando da economia americana, as demais gigantes do setor, notadamente Quest e Quarup, tenham colocado suas lentes e antenas para verificar de maneira mais detalhada a sua nova concorrência. E recentemente lançaram questões que poderão, se comprovadas, rebaixar a magia e forma de trabalhar da Theranos.

Quando uma empresa nos EUA fabrica os seus próprios equipamentos e os utiliza unicamente para o seu consumo não existe a necessidade de registro e aprovação no FDA. Basta apenas a aprovação nos testes de proficiência, Controle de Qualidade Externo. Atualmente existe uma séria desconfiança de que boa parte dos equipamentos utilizados pela Theranos não seja de tecnologia própria. Seriam equipamentos utilizados já há algum tempo apenas adaptados para o trabalho com valores mínimos de sangue.

Elizabeth nega peremptoriamente essas conjecturas e diz estar pronta para que todo o seu empreendimento seja auditado de ponta a ponta pelo FDA.

É do mais amplo conhecimento que o processo de eluição, ou seja, a retirada do sangue coagulado que impregna o papel filtro, é bem complicada e qualquer falha nesta operação poderá alterar os resultados dos procedimentos laboratoriais que extrapolarão as diferenças clinicamente aceitáveis.

Este é mais um round de uma batalha que terá longa duração e que também é monitorada por toda a cadeia da saúde, há um bom tempo.

Fala-se na monitorização por grandes grupos econômicos, interessados no desenrolar dos acontecimentos. Existem boatos nunca confessados de que um grupo instalado no país pretende associar-se ao empreendimento, para oferecer ao Ministério da Saúde esta tecnologia para uso do SUS a preços bem inferiores à atual tabela de procedimentos que, como se sabe, é a maior geradora de misérias no contexto laboratorial.

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Irineu Grinberg
Publicado por Irineu Grinberg

Irineu Grinberg é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC). Email: irineugrinberg@gmail.com

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