A formação intelectual do profissional de laboratório clínico sempre foi voltada para o setor técnico-científico, procurando conduzir seu trabalho de conformidade com as principais normas técnicas, visando à solução dos problemas analíticos, de maneira que o resultado dos laudos laboratoriais dos exames por ele realizados espelhassem a mais alta exatidão.

Se observado com mais amplitude o perfil psicoemocional desses nossos colegas, poderia ser lembrada a possibilidade de que, por timidez ou algo similar, ele se oculta no interior do laboratório e lá permanece toda a sua vida, divorciado da realidade de um mundo pleno de competitividade que em determinados momentos pode chegar aos limites da crueldade.

Enquanto coisas acontecem lá fora, nosso profissional está escondido atrás das oculares de seu microscópio. Num dia qualquer se deu conta de uma realidade que não conhecia e assustou-se. Foi no primeiro fim de mês quando faltou numerário para pagar seus empregados, fornecedores e tributos.

Em pânico, começou a entrar em contato com outros colegas e viu que com eles o mesmo acontecia e que se as coisas não mudassem muito rápido, teria que fechar o laboratório, ou quem sabe vendê-lo, como se pudesse existir alguém querendo comprá-lo.

E, para piorar a situação, a fiscalização da Vigilância Sanitária visitou o seu Laboratório e apontou vários itens da RDC 302 fora de conformidade. Deixou uma lista enorme e dispendiosa de exigências e prazo exíguo para cumpri-las.

Logo após tomou contato com a existência do TUSS, que sua implantação já estava vigendo e que nada sabia a respeito.

Desesperado, telefonou para seu Sindicato, para a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas – SBAC, para a Federação dos Estabelecimentos de Saúde do seu estado (descobriu que existia uma Federação) e até para o Conselho regional de Farmácia.

A todos perguntou:

― O que vocês estão fazendo para nos ajudar ?

Todas as entidades responderam da mesma forma:

― Estamos em contato permanente com o Ministério da Saúde, com a ANVISA, com a ANS. E estamos procurando de todas as formas uma negociação que possa melhorar a remuneração do SUS. Quando comparecemos às infindáveis reuniões no Ministério apresentamos soluções que possam aprimorar o atendimento e trazer alguma contra partida para os Laboratórios.

Em relação aos demais convênios, comparecemos a todas as reuniões da ANS para cobrar o cumprimento das resoluções. Não é fácil suplantar uma burocracia lenta, aliada ao poderio das operadoras de planos de saúde.

Procuramos a todo momento o alívio da extorsiva carga tributária, a inclusão dos laboratórios numa classe palatável do Simples. Participamos de todas as comissões e grupos de trabalho junto a todos os órgãos públicos onde o assunto laboratório é ventilado. Temos grandes esperanças de reverter esta corrente nefasta, mas enfrentamos dificuldades financeiras ― o país é muito grande, os deslocamentos são contínuos, as reuniões acontecem a todo instante e temos grande dificuldade para estarmos presentes em todas elas.

― A propósito, o colega é sócio de alguma de nossas entidades? Alguma vez colaborou financeiramente para que pudéssemos formar um fundo de caixa para cobrir essas necessidades? O colega participou do 42º Congresso Brasileiro de Análises Clínicas? Assistiu ao 1º Fórum de Proprietários de Laboratórios? Avaliou a posição ideológica daqueles que têm outra opinião e que hoje são governo?

O colega pensou e se deu por conta que não conhecia, nem de nome, a maioria dos organismos citados; que nunca participou de nenhuma entidade e que no tempo das “vacas gordas”, jamais lhe passara pela cabeça que a situação um dia poderia mudar e que o bom padrão de vida que obtinha com o seu laboratório havia revertido a uma situação inversa, talvez sem possibilidades de retorno.

Deu-se por conta de que todas as entidades associativas de que sempre desdenhara são as que estão trabalhando diuturnamente tentar seu retorno a tempos. E que dependia do trabalho delas para reverter a sua vida.

A SBAC, juntamente com as entidades congêneres e co-irmãs, Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial – SBPC/ML, ABBM, com os Conselhos Federais e Regionais de Farmácia, Medicina e Biomedicina, Confederação Nacional da Saúde, através do Departamento de Laboratórios (setor da entidade que congrega todos os Sindicatos de Laboratórios do país) vem trabalhando arduamente em todos os setores que poderão trazer melhorias às atividades laboratoriais.

Participa de todos os grupos de trabalho no Ministério da Saúde e na ANVISA.

Durante o 42º Congresso Brasileiro de Análises Clínicas foi lançada a proposta de criação de Frente Parlamentar em Defesa dos Laboratórios de Análises Clínicas, que será coordenada pelo Deputado Ronaldo Nogueira (PTB-RS). Será a nossa representação junto ao parlamento nacional e procurará mediante a utilização democrática da legislação aliviar a situação perversa e melhorar nossos caminhos.

Neste momento, o mais adequado a fazer é descruzar os braços. Existe a necessidade imperiosa do trabalho e da cooperação de todos. Esta cooperação poderá ser efetivada de várias formas, tais como pressionando os parlamentares a aderirem à nossa frente parlamentar, comparecendo aos eventos e, fundamentalmente, associando-se às entidades, Sociedades, Sindicato dos Laboratórios ― e pagando as mensalidades ou outras formas de contribuição com pontualidade.

Elas serão revertidas em resultados positivos.

Àqueles colegas que sempre primaram por ações individualistas, quer por interesses pessoais ou timidez, vale a mensagem do associativismo e do trabalho conjunto.

Antes que seja muito tarde.

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Irineu Grinberg
Publicado por Irineu Grinberg

Irineu Grinberg é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC). Email: irineugrinberg@gmail.com

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