O mercado é inexorável! Ainda que manipulado (subsídios, dumping…) continua impondo as suas regras. A falta de capacidade produtiva instalada para atender uma determinada demanda fatalmente irá provocar uma alta nos preços dos produtos. O inverso também é verdadeiro. Atualmente, no mundo globalizado, a abertura do mercado internacional e a tecnologia (velocidade das informações, transportes e capacidade de armazenamento) são fatores que influenciam os preços de mercado e impactam diretamente na competitividade das empresas.

Hoje, um concorrente competente e agressivo pode estar disputando uma fatia dos clientes de uma organização que até ontem liderava um determinado mercado local, ainda que distante de um grande centro. Em suma, isto mostra que ninguém está garantido, esteja onde estiver.

Só há uma maneira de sobreviver: sendo competitivo em qualquer lugar do planeta! No caso específico dos laboratórios clínicos, esta situação é cristalina. Até no início dos anos 80, bastava o profissional da área estruturar um laboratório, na prática sem se preocupar com a existência de mercado, calcular seus custos de forma global, adicionar a margem de lucro desejada e impor aos clientes o “seu” preço.

A concorrência era branda, havia mercado para todos, a medicina não era socializada e os clientes pagavam à vista. Era a época de “ouro” para o segmento das análises clínicas. Quais as razões desta situação maravilhosa? Reduzida capacidade produtiva (os exames eram feitos quase todos de forma manual) frente à demanda e mercado fechado para o mundo. Adicionalmente, não havia a cultura das ações judiciais e nem a consciência coletiva dos consumidores, proporcionada fundamentalmente pelo novo Código de Defesa do Consumidor (CDC) acrescido pelas exigências crescentes vinculadas à vigilância sanitária.

Hoje os convênios são os principais compradores de exames dos laboratórios clínicos. São os atores intermediários entre os clientes e os laboratórios, frutos da socialização da medicina, que impõem os preços, pois a força do coletivo está com eles. O capital estrangeiro aportou neste mercado, alterando drasticamente o perfil da concorrência. Foi o fim da era de “ouro” e o início da era do “euro/dólar”. Atualmente não existe mais espaço para a aventura, para o amadorismo na gestão destes negócios. Há sim, a imperiosa necessidade de gestões profissionais nos laboratórios. Se não formos competitivos, não sobreviveremos como empreendedores!

Mas o que isto significa?

1) O laboratório clínico é uma alternativa de investimento para seus acionistas, portanto, deve ser competitivo.

2) Ser competitivo significa ter maior escala e ou produtividade que os concorrentes.

3) A produtividade relaciona receitas com os custos, por decorrência, rentabilidade.

4) Atualmente não basta produzir exames com qualidade, a vantagem competitiva decorre da qualidade em serviços.

Isto nos conduz a uma reflexão sobre competência gerencial. Sobre a qualidade das decisões presentes no dia a dia dos laboratórios. O mercado mudou, como já foi dito, impondo os preços dos exames. Não se trata do mundo ser ou não justo. De nada adianta a postura das lamentações.

Não podemos colocar o futuro dos nossos laboratórios somente na mão dos outros e adotar o papel de “vítimas” do destino. Precisamos fazer a nossa parte, sermos proativos, fazer acontecer, sermos os sujeitos das nossas ações que busquem a rentabilidade, a produtividade, enfim, a competitividade das organizações pelas quais somos responsáveis. Não existe alternativa: a decisão para um futuro inteligente passa em transformar uma gestão empírica em profissional.

É necessário saber calcular os custos dos exames e, por decorrência, a rentabilidade de cada um na medida em que forem associados os preços pagos por eles. Ainda, devem ser calculadas as rentabilidades dos equipamentos e setores para ser possível definir uma correta política de operação ou terceirização dos exames, cujos custos de produção não justifiquem a realização no próprio laboratório clinico.

Finalmente, todos os principais indicadores econômico-financeiros da organização (ponto de equilíbrio, margem de segurança, margem de lucro, geração de caixa etc.) devem ser conhecidos e ter referenciais comparativos (processo de benchmarking). Somente assim será possível tomar decisões fundamentadas em fatos e dados, analisar rentabilidade de negócios e convênios, identificar causas, propor soluções de problemas e, principalmente, buscar alternativas corretas para o futuro da empresa.

Este é o único caminho para a competitividade e sobrevivência dos laboratórios clínicos nos tempos atuais. Em nome da verdade, existe um caminho opcional, que somente será possível com a união nacional dos laboratórios clínicos, que é o aumento dos preços pagos pelos exames! Esta união continuará sendo necessária para fazer acontecer o previsto na Lei Federal no 13.003 de 24 de junho de 2014 que regulamente as relações entre prestadores de serviços e operadoras de planos de saúde que assegura reajustes anuais dos preços pagos pelos serviços.

Finalmente, a união também é necessária para a sanção presidencial do projeto de lei que modifica o regime de tributação das micro e pequenas empresas, o chamado Simples Nacional ou Super Simples. Este projeto amplia o acesso do setor de serviços ao Simples Nacional e os laboratórios clínicos que atualmente estão enquadrados no anexo V, passam para o anexo III. Estas duas leis certamente indicam o início de um novo tempo de esperanças para os laboratórios clínicos do País.

 

Compartilhe:

Humberto Façanha
Publicado por Humberto Façanha

Atualmente é diretor da Unidos Consultoria e Treinamento e professor da Pós-Graduação em Análises Clínicas do curso de Biomedicina – Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo (IESA). Professor do Centro de Pós-Graduação da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas – CPG/SBAC. Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Engenheiro Eletricista pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Engenheiro de Segurança do Trabalho pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Especialista em Engenharia de Análise e Planejamento de Operação de Sistemas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG/ELETROBRAS), formação em gestão da qualidade e Auditor Líder em ISO 9000. Contatos: humberto@unidosconsultoria.com.br e hfcfunidos@yahoo.com.br

Este conteúdo é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do LabNetwork.