Em 2021, o Cristo Redentor ficou azul chamando a atenção para o problema da resistência bacteriana. Se a questão já preocupava as autoridades de saúde em um cenário pré-Covid-19, com a pandemia e o uso aumentado de antibióticos, é possível que o mundo alcance níveis exorbitantes de resistência bem mais rápido que o previsto. Grandes laboratórios de diagnóstico têm dado sua contribuição para o problema, oferecendo soluções de combate às infecções hospitalares e aos problemas relacionados 

Por Milena Tutumi

De acordo com a Organização Mundial das Nações Unidas, até 2050, 10 milhões de pessoas devem morrer em decorrência da resistência bacteriana. Entretanto, a pandemia de Covid-19 parece ter acelerado esse processo: “Imaginamos que esse prognóstico foi adiantado em 10 anos”, menciona Carlos Eduardo Barbosa Domingos, coordenador de microbiologia do DB Diagnósticos. O aumento do uso de antibiótico em decorrência de infecções e também o seu uso indiscriminado já está surtindo efeitos.

Os hospitais são, em geral, os locais que merecem mais atenção quanto às questões de resistência bacteriana, sendo também os maiores indicadores de alterações e anormalidades. Durante a pandemia, isso ficou ainda mais evidente, como explica a médica infectologista, Dra. Ana Gales: “Com o aumento da utilização da terapia intensiva e da falta de infraestrutura adequada para atender a essa demanda, percebemos um aumento mundial das infecções na assistência à saúde. Podemos citar a pneumonia associada à ventilação mecânica e a infecção de corrente sanguínea associada ao uso de cateter”.

As bactérias “promovidas” na pandemia

O impacto desses procedimentos resultou no aumento das infecções causadas pelas bactérias Acinetobacter baumannii e Klebsiella pneumoniae em pacientes em ventilação mecânica, e de outros patógenos, como Enterococcus e Candida em infecções de corrente sanguínea. “Já tínhamos determinados mecanismos resistentes no Brasil, mas que passaram a ser mais notificados durante a pandemia”, explica a especialista.

Domingos, do DB, pontua que as bactérias de tuberculose também estão chamando a atenção: “O Brasil tem o pior cenário fora da África e o tratamento longo da doença exige antibióticos de primeira linha. Sabemos que sequelas pulmonares pós-Covid-19 são possíveis e podemos ter uma falha de diagnóstico com esses casos de tuberculose. Daqui a uns anos poderemos falar de um cenário complicado para a questão”, prevê.

O papel dos laboratórios e do diagnóstico

Carlos Eduardo Barbosa Domingos, coordenador de microbiologia do DB Diagnósticos

Nessa corrida contra o tempo, laboratórios de diagnóstico e demais stakeholders da cadeia de saúde trabalham em esforços que têm resultado em ações de apoio aos programas de combate à resistência, os chamados antimicrobial stewardship. Carlos Domingos ressalta que esses programas ainda não estão muito instituídos no Brasil, mas que as mudanças já são percebidas: “No DB estamos valorizando a informação por meio da análise de dados. Hoje, orientamos os médicos sobre o que não deve ser utilizado, alertando dos possíveis riscos do uso de determinados antibióticos. O laboratório está procurando antever possibilidades”.

Para exemplificar na prática os resultados das soluções de inteligência, Domingos cita uma análise recente de microrganismos realizada no DB Diagnósticos, com a bactéria Acinetobacter baumannii: “Em levantamento no período da pandemia, a resistência ao antibiótico Meropeném chegou a quase 80%, o dobro antes da chegada da Covid-19”. Para o coordenador, são informações como essas que permitem ao laboratório adiantar um passo para que o médico utilize o antibiótico da forma mais racional.

O Grupo Fleury é outro gigante da saúde que investe em serviços e soluções para detectar a resistência bacteriana. Nos cinco hospitais em que atua como parceiro, tem levado as ferramentas de business intelligence (BI) que fazem a análise sistêmica de dados, acompanhando durante toda a rotina, mostrando tendências e capturando precocemente informações que também sirvam de alerta às equipes responsáveis.

O Dr. Edgar Rizzatti, diretor executivo Médico, Técnico e de Negócios B2B, comenta que as soluções são customizáveis às necessidades do hospital, de acordo com cada unidade e área, e seguem os protocolos da instituição para o combate à resistência de antimicrobianos. E há ainda a parceria com a robô Laura, inteligência artificial em saúde: “Conseguimos identificar rapidamente qualquer sinal de deterioração clínica do paciente e as ações podem ser executadas evitando a evolução para desfechos desfavoráveis, como sepse”, destaca o diretor médico.

Flávia Helena da Silva, gerente sênior de P&D, Produtos, Processos Médicos e Técnicos do Grupo Fleury,  acrescenta que trabalham muito sobre o conceito de Safety Intelligence, ao utilizarem os dados para a segurança do paciente, alinhados ao design da informação e uma plataforma amigável: “Dessa forma oferecemos uma proposta de valor, conseguindo redução no tempo de navegação, visões mais amigáveis que permitem análises, alertas automáticos, alertas de combinações importantes que impactam na tomada de decisão mais rapidamente”.

O DB Diagnósticos, que também atende o cliente hospitalar oferecendo programas específicos, tem atuado com esse público há cerca de dois anos, a partir de toda uma reestruturação física e de equipe, com investimentos que já somam em torno de R$ 5 milhões. “É uma área em expansão, precisamos dar sentido a toda tecnologia para que os médicos consigam fazer um trabalho na ponta muito mais eficiente”, avalia Carlos Domingos, coordenador da microbiologia do laboratório.

Transmissão comunitária e informações epidemiológicas

Em paralelo, os laboratórios têm utilizado a inteligência das soluções para fornecer dados epidemiológicos para o sistema de saúde. De acordo com achados do DB, já é possível detectar a presença de resistência bacteriana na população, em pacientes que não estiveram em hospitais, por exemplo.

Domingos diz que estão investindo muito em estudos voltados à questão, que incluem projetos com a comunidade, principalmente para levar informação à classe médica, gerando dados epidemiológicos bem estruturados.

O Fleury também tem atuado na prevenção de surtos junto à saúde pública a partir das soluções de BI e um corpo clínico de profissionais especializado.

É preciso diagnosticar para controlar

Vale lembrar, como diz a médica Dra. Ana Gales, que a pandemia ainda não acabou e a saúde ainda deve se deparar com outros mecanismos resistentes no pós-pandemia, mas ainda não há dados suficientes para mostrar onde estarão os déficits.

Ações conjuntas podem minimizar o problema. Nesse sentido, o Dr. Rizzatti cita um case de um cliente hospitalar, que envolve o Grupo Fleury, responsável pelas análises; o robô Laura, que sinaliza em caso de qualquer anormalidade; e a farmacêutica MSD: “A indústria revisou e estabeleceu cinco protocolos de uso racional de antibióticos para as principais infecções da prevalência na instituição”.

Para Carlos Domingos, do DB, os desafios trazidos pela pandemia explicitaram que investir em diagnóstico é a melhor forma de prevenção. A Dra. Gales também aponta a falta de métodos diagnósticos e a dificuldade de acesso na saúde pública, “com poucos testes que ofereçam um conforto ao médico, determinando se é uma infecção ou uma inflamação, um vírus ou uma bactéria”, lamenta.

A importância do antimicrobial stewardship

A infectologista reforça que ainda há muito a se fazer em controle de infecção hospitalar e a parceria com um laboratório é de grande valia: “O laboratório ajuda a definir parâmetros essenciais, como a bactéria causadora de infecção ou o perfil de sensibilidade”. Mas para ela, é injustificável a ausência em uma instituição de saúde de ações para controle de infecção, por falta de uma estrutura laboratorial ou equipe, pois um programa adequado permite a execução de ações que independem de um laboratório, “como reduzir o tempo de prescrição do antimicrobiano ou determinar melhor o uso em caso de prescrição”, conclui.

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