Considerando os diferentes tipos de vacina e protocolos, é ainda incerto afirmar se um resultado de anticorpos reflete a proteção devida

Por Milena Tutumi

Com o avanço do número de pessoas vacinadas contra a Covid-19, surgem as dúvidas sobre a eficácia da imunização e o papel dos testes nesse contexto. A certeza é que os testes para detecção e diagnóstico do SARS-CoV-2 vieram para ficar no menu de exames dos laboratórios como parte da rotina de testagem. Entretanto, a relevância dos testes sorológicos para determinar a proteção do indivíduo vacinado ainda vem sendo discutida. Espera-se num futuro breve que os testes de anticorpos sirvam para identificar indivíduos que já tiveram a viragem sorológica com relação à vacinação ou que tiveram previamente a doença. “Ainda existe dúvida sobre qual o impacto disso em termos de imunidade de fato. A literatura diz que indivíduos que têm anticorpos detectáveis estão mais protegidos que aqueles que não têm”, comenta o Diretor Técnico do Laboratório Sabin de Análises Clínicas, Dr. Rafael Jácomo.

Considerando os diferentes tipos de vacina e protocolos, é ainda incerto afirmar se um resultado de anticorpos reflete a proteção devida. A infectologista do Grupo Pardini, Melissa Valentini, explica que a eficácia de uma vacina em estudos clínicos é feita a partir da avaliação do número de pessoas que adoeceram da doença no braço vacinado e no braço não vacinado. Em paralelo, são feitos também estudos de monitoramento da produção de anticorpos e da avaliação da resposta imune realizada pelas células. “O que existe nos laboratórios para avaliar a produção de anticorpos a partir de uma vacina é diferente do que é feito normalmente nos estudos clínicos de vacina, que são testes complexos para avaliar os anticorpos neutralizantes”, comenta a médica.

Esses testes aos quais a Dra. Melissa se refere precisam de cultura celular e são feitos só nos laboratórios de pesquisa. Saber se a vacina produziu uma resposta imune por meio de testes laboratoriais depende de outros fatores, além do resultado: “Não sabemos a quantidade de anticorpos produzidos que é necessária para não adquirir a doença. Realizar o teste em um laboratório e ter o anticorpo detectado contra a Covid-19, significa que seu corpo reagiu e produziu anticorpos contra a doença. Entretanto, se esses anticorpos são suficientes para poder impedir uma infecção é o que não se sabe ainda”, pontua.

Melissa Valentini, infectologista do Grupo Pardini. Foto: Felipe Abras

Um acompanhamento mais preciso teria que ser realizado em conjunto com os diferentes tipos de vacinas e protocolos. “Só no Brasil temos quatro imunizantes diferentes. Teria que se avaliar a quantidade de anticorpo necessária para prevenir a infecção e o tipo de teste a ser usado para cada imunizante disponível”, visualiza a infectologista do Grupo Pardini. “No futuro, os estudos quantitativos devem mostrar um número para nortear os médicos, laboratórios clínicos e a necessidade de revacinação em alguma população específica”, espera a médica.

A bióloga Ana Flávia Pires, Gerente de Produto e Sócia da Germsure Biosafe e Consultoria, reforça que há estudos sendo feitos para mostrar se existe correlação entre a não-detecção desses anticorpos e a infecção, ou mesmo entre essa não-detecção e uma maior taxa de mortalidade entre pessoas com duas doses de vacina. Em seu papel de gerente de produto, Ana Flávia diz que procura sempre entender a “dor” ou qual o problema na saúde que será resolvido com o uso do teste: “Se olharmos de forma individual realmente ainda não temos uma resposta robusta estabelecida, mas e se olharmos de forma comunitária? Por exemplo, se uma secretaria de saúde de um município decidir acompanhar epidemiologicamente a resposta pós-vacinal de um determinado grupo populacional, mesmo em locais com pouca ou nenhuma infraestrutura laboratorial, hoje isso é possível”.

O Diretor Técnico do Sabin opina que em casos específicos, como em indivíduos que tenham imunodeficiência adquirida, a testagem pode ser solicitada pelo médico responsável para algum tipo de avaliação e chama a atenção para indivíduos que tiveram um resultado negativo após as duas doses: “Isso não significa uma autorização para fazer uma terceira dose ou que esteja desprotegido”. A bióloga Ana Flávia corrobora com a questão: “Ainda não há um desfecho clínico do que deve ser feito após o resultado desse exame. Se a pessoa tomou as duas doses da vacina e o resultado foi abaixo do limite de detecção do teste utilizado ou se foi quantificada a presença de anticorpos, nada ainda será feito para essa pessoa. Isso porque nós sabemos que além da resposta imune nós também temos uma resposta celular, que não é possível ser quantificada em testes laboratoriais de larga escala”.

Avanços tecnológicos e as variantes

Dr. Rafael Jácomo, Diretor Técnico do Laboratório Sabin de Análises Clínicas

Rafael Jácomo comenta que em breve um teste que avalia a imunidade nas células T deverá ser disponibilizado. A nova solução serve para detectar uma infecção antiga ou recente. “Em princípio, essas células são mais importantes para revelar a infecção já instalada. São testes bem manuais e não muito acessíveis”. Mas, assim como as demais soluções disponíveis, o Diretor reforça que o importante é entender junto ao médico qual a utilidade que essa informação vai ter.

Hoje, um dos principais pontos de variação na evolução do vírus é na proteína spike e a maioria dos testes relevantes que detectam anticorpos são baseados na detecção de ligação a essa proteína. “Eventualmente pode haver uma mudança estrutural na proteína que torna os testes menos sensíveis. Mas estamos falando de anticorpos, que não são os testes indicados para dar um diagnóstico de Covid-19”, diz o Dr. Jácomo. Sobre os testes moleculares para diagnosticar o SARS-CoV-2, o médico complementa: “Os testes de PCR trabalham com até três alvos moleculares, avaliando além da proteína spike. Isso nos dá uma certa segurança, mostrando que é preciso haver uma quantidade razoável de mutações exatamente nas regiões dos primers utilizados para que o PCR não a detecte”.

Para Ana Flávia, da Germsure, o importante é compreender o papel da testagem no enfrentamento da pandemia: “É necessário que se tenha uma diretriz nacional para a indicação do uso dos testes em relação à cobertura vacinal, visto que hoje ainda convivemos também com a falta de diretriz para a testagem de um modo geral”.

Referências:

https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.08.16.21262069v1.

https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/coronavirus-covid-19-update-fda-authorizes-adaptive-biotechnologies-t-detect-covid-test.

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