Uma questão recorrente aos especialistas da área é se os serviços laboratoriais são estritamente uma commodity ou se eles podem gerar melhores resultados para pacientes, provedores e stakeholders

Por Cristina Sanches

A maior exigência dos clientes e a pressão do mercado por laboratórios mais eficientes têm exigido mudanças na gestão laboratorial nos últimos anos. Os laboratórios clínicos precisam entregar resultados mais complexos, mais rápidos e com menor custo, e diante do crescimento de grandes redes laboratoriais, manter-se sustentável é um desafio cada vez maior.

Uma questão recorrente aos especialistas da área é se os serviços laboratoriais são estritamente uma commodity ou se eles podem gerar melhores resultados para pacientes, provedores e stakeholders. Hoje, sabe-se que, diante dos custos cada vez mais frequentes em saúde, os laboratórios assumem um papel importante ao oferecer resultados rápidos e com alto grau de confiabilidade.

Assim, novos modelos de gestão e de remuneração começam a ser discutidos e implementados. E avaliar o desempenho torna-se fundamental. Mas também é preciso lidar com as mudanças nas relações de trabalho, como a Reforma Trabalhista, que entrou em vigor em novembro de 2017. Defendida pelo governo como a saída para colocar as contas públicas em ordem, a mudança impactou profissionais de todos os setores.

Indicadores de desempenho

“Como disse Deming (William Edwards Deming), famoso pensador da administração, ‘não se gerencia o que não se mede, não se mede o que não se define, não se define o que não se entende e não há sucesso no que não se gerencia’. Os laboratórios clínicos brasileiros foram submetidos à intensa perda de margens nos últimos anos devido à dificuldade de reajustar os preços de venda em relação à evolução dos índices inflacionários. Neste cenário, a sobrevivência e o crescimento só foram possíveis com grande incremento da produtividade e da eficiência. O uso de indicadores é parte importante deste processo, impactando diretamente nos resultados das empresas”, diz Guilherme F. Oliveira, diretor de Acreditação e Qualidade da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica (SBPC/ML).

Já faz parte da rotina dos principais laboratórios o uso de indicadores de qualidade, produtividade, capacidade, rentabilidade, liquidez, participação no mercado, grau de satisfação dos clientes, entre outros. Há indicadores para todas as fases do processo laboratorial.

Segundo Alex Galoro, gestor médico regional do Grupo Sabin, os principais indicadores laboratoriais para avaliação de processos críticos são:

– Erros de cadastro;

– Erros de identificação do paciente e/ou amostra;

– Recoleta;

– Inadequação do controle de qualidade interno;

– Desempenho inadequado em ensaios de proficiência;

– Atraso na liberação de resultados;

– Insucesso na comunicação de resultados críticos;

– Retificação de laudos.

“Os principais programas de Acreditação e Certificação, como PALC (Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos) e ISO (International Organization for Standardization; em português, Organização Internacional de Normalização), exigem a utilização de indicadores para as fases pré-analítica, analítica e pós-analítica, com a participação em grupos de benchmarking”, ressalta ele.

Os indicadores assumem assim o papel de ferramentas imprescindíveis para a gestão e estratégia dos negócios, permitindo a mensuração com dados objetivos sobre as diferentes áreas do laboratório que suportam as decisões necessárias e as tornam mais efetivas. Para isso, diz Galoro, alguns indicadores estratégicos costumam ser utilizados, como distribuição de despesas, despesas com pessoal, produtividade, absenteísmo, rotatividade de pessoal, entre outros.

Mas ainda há desafios em sua implantação na rotina das operações laboratoriais. Para Oliveira, da SBPC, o primeiro passo é estar ciente de que o uso dos indicadores não deve ficar restrito aos escalões superiores das empresas. “Deve existir o desdobramento até os colaboradores das atividades operacionais, para que exista um controle adequado da operação.” Galoro cita as principais etapas e desafios para o uso dos indicadores:

Levantamento dos processos críticos e definição dos indicadores que serão utilizados para seu monitoramento: nesta etapa, o principal desafio é definir os indicadores necessários para a gestão, com sua memória de cálculo, fonte de dados, responsáveis pelo levantamento, frequência e metas;

Levantamento dos dados, cálculo e reporte dos indicadores: nesta etapa, podem surgir dificuldades para obtenção dos dados, conforme o descritivo dos indicadores e a forma de apresentação dos seus resultados e metas;

Análise crítica dos indicadores obtidos: nesta etapa, o principal desafio é a interpretação adequada dos indicadores apresentados. Com frequência, a primeira reação aos indicadores com baixa performance é o questionamento da metodologia, citando fatores que possam influenciá-los e levantando-se dúvidas sobre a validade de suas informações. Com o amadurecimento do processo e da equipe, as decisões passam a ser mais assertivas;

Implantação de melhorias, com base nos indicadores: com o amadurecimento do processo, as informações dos indicadores passam a ser interpretadas de forma mais assertiva e permitem a tomada de decisões que permitam a melhoria dos processos. O principal desafio é a análise correta das informações, a identificação da causa raiz dos problemas nos processos e o acompanhamento para verificar a efetividade das ações.

Mesmo diante de possíveis dificuldades em seu uso, os indicadores são essenciais para que os laboratórios se mantenham sustentáveis diante de tantas mudanças. “O fator principal para a mudança na gestão laboratorial, com base nos indicadores laboratoriais, é a utilização de dados objetivos para identificação dos principais problemas, a priorização dos pontos críticos para implantação de melhorias e para verificação da efetividade das ações. O uso dos indicadores para a gestão permitirá a obtenção de maior base de dados para comparação destes indicadores, a identificação dos principais fatores de sucesso ou insucesso para estes processos e a necessidade de melhorias. Isto permitirá o desenvolvimento da qualidade dos laboratórios, com maior eficiência, eficácia e segurança do paciente.”

Vale lembrar que artigos internacionais demonstram melhorias nos indicadores de laboratórios participantes de Programas de Comparação de Indicadores. “Um artigo do Colégio Americano de Patologistas (CAP) demonstra que laboratórios que participam do programa Q-Tracks apresentam melhoria nos indicadores de recoleta e erros de identificação de pacientes e amostras, conforme o aumento no número de rodadas do programa que participou”, ressalta Galoro.

Reforma Trabalhista

Entre as mudanças ocorridas nas relações de trabalho com a Reforma Trabalhista estão a possibilidade de fracionamento das férias em até três períodos (não podendo um ser inferior a 14 dias), a critério do empregado – antes a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) somente permitia dividir as férias em duas vezes, com um mínimo de dez dias corridos em uma delas; a possibilidade de reduzir o intervalo da intrajornada para até 30 minutos (mediante negociação coletiva), possibilitando que o término final da jornada seja antecipado; a contribuição sindical passa a ser opcional, dependendo necessariamente da autorização do empregado; empregadas gestantes e lactantes que trabalhem em local insalubre em grau máximo devem ser remanejadas de local ou afastadas do trabalho (na forma de auxílio maternidade) e as que trabalhem em local insalubre em grau médio ou baixo também terão tal direito caso obtenham atestado médico particular indicando a necessidade; possibilidade de serem implementados benefícios como prêmios, gratificações, dentre outros, sem a necessidade de negociação coletiva (não sendo considerados como verbas de natureza salarial, o que aumentava os encargos e impedia a viabilidade dos benefícios). Outra alteração é em relação ao tempo gasto no percurso para se chegar e retornar do trabalho, que não poderá mais ser computado como parte da jornada de trabalho.

E como essas alterações impactam os profissionais e as empresas da área da saúde? Talvez o tema mais relevante para o setor seja referente às mudanças trazidas na jornada de trabalho. O setor de saúde tem a peculiaridade de possuir jornadas de trabalho diferenciadas em decorrência da necessidade de atendimento contínuo aos pacientes. Por isso, mesmo antes da reforma, diversos sindicatos já pactuavam uma maior flexibilidade nas jornadas dos profissionais de saúde, permitindo prorrogações de jornada com compensações, regimes especiais de 12×36 horas e plantões de 24 horas, o que era chancelado e autorizado pela jurisprudência, desde que acordado coletivamente.

Especialistas acreditam que a reforma poderá modernizar a relação de trabalho entre empregado e empregador, criando facilidades e segurança jurídica na relação. Para Fábio Brazão, diretor Administrativo e Financeiro da SBPC, a reforma trabalhista foi um grande avanço na relação de trabalho, já que a CLT, criada na década de 1940, já não estava atendendo às demandas do mercado laboral atual.

“O setor da saúde, incluindo os laboratórios, possui a necessidade, em muitas ocasiões, de jornadas de trabalho especiais, tais como 12 horas de trabalho seguidas por 36 horas de folga, plantões de 24 horas e trabalho intermitente, ou seja, a empresa pode contratar o profissional para trabalhar em serviços pontuais e pagá-lo apenas pelo período em que prestou seus serviços. A CLT antes não regulamentava esse tipo de trabalho. O contrato de trabalho intermitente deve ser feito por escrito e ter especificado o valor da hora de trabalho. A reforma possibilitou a aplicação destas relações com segurança jurídica.”

Um avanço já percebido nos dias atuais, comenta ele, é a diminuição dos processos trabalhistas, com a possibilidade de acordos para dispensas consensuais entre patrões e empregados, além do fim da obrigatoriedade da contribuição sindical. “Outro ganho é que o trabalhador ainda pode ter as suas férias partilhadas em até três períodos. O grande desafio é a retomada do crescimento da atividade econômica do nosso país, levando ao aumento do emprego”, avalia.

Para o advogado Gustavo Azevedo Rôla, do Trindade & Trindade Advogados, a mudança promoveu alguma flexibilização na relação de emprego, sobretudo quando amparada por negociação coletiva instrumentalizada em Norma Coletiva. “Mas a reforma não autorizou, em linhas gerais, alterações contratuais a partir da própria relação existente entre empregado e empregador.”

Segundo ele, o desafio das empresas, agora, está em tentar utilizar as novas ferramentas trazidas pela reforma para o âmbito das relações de emprego, e ressalta: “a reforma não autorizou que as empresas deixem de assinar a carteira de trabalho de seus empregados e passem a terceirizar toda e qualquer prestação de serviços. A CLT continua em pleno vigor e a Justiça do Trabalho continuará a reconhecer a existência de fraude contratual quando ficar demonstrada a existência de uma relação de emprego mascarada.” Antes da vigência da reforma, a terceirização era permitida apenas para as atividades-fim. A partir das mudanças implementadas, não se consideram mais diferenças entre qualquer tipo de atividade.

Outra mudança que afeta os laboratórios são as relacionadas às atividades insalubres, consideradas aquelas em que os trabalhadores estão sujeitos a condições de frio, calor, barulho, poeira entre outras, e por conta da exposição a tais fatores de risco à sua saúde possuem o direito constitucional de receberem um adicional em seu salário.

O Ministério do Trabalho fixou níveis de pagamento deste adicional em 10% do salário quando se trata de insalubridade em grau mínimo, 20% em grau médio e 40% em grau máximo. Além disso, a jornada diária dos trabalhadores expostos a riscos deveria ser menor.

Com a Reforma Trabalhista, os níveis de adicional permaneceram, entretanto poderão ter os valores alterados através de acordo entre o sindicato dos empregados e empregadores. Isso significa que, se anteriormente à reforma determinava-se que o grau de insalubridade máximo seria de 40%, com as mudanças na lei pode-se fixar em 10%. Patrão e empregados também poderão acordar as horas em que os trabalhadores estarão sujeitos à jornada insalubre.

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