O desafio principal dos aspirantes a pós-graduações é a quantidade de vagas, considerando a quantidade de profissionais que se formam todos os anos

Por Milena Tutumi

Com a chegada da Covid-19, os problemas na educação que já eram recorrentes ficaram ainda mais latentes. As aulas remotas, a restrição orçamentária do governo que já datava de antes da chegada do vírus, somadas a cenários de incerteza, como as mudanças na diretoria da Fundação Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), estão impactando na pós-graduação de estudantes. E nesse contexto, o número de vagas para bolsas ainda é apontado como deficiente para atender a todos os interessados.

O Diretor Científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Luiz Eugênio Mello, aponta que a pandemia impactou diretamente nas diferentes áreas da pesquisa científica e tecnológica, tanto em relação ao Brasil como em outras partes do mundo: “A mobilidade dos estudantes entre os países ficou prejudicada com o fechamento das fronteiras. Muitas atividades de pesquisa desenvolvidas tanto nos laboratórios das Universidades/Institutos como aquelas desenvolvidas no campo ficaram paradas por vários meses”. Isso fez com que as universidades prorrogassem o tempo de titulação para o Mestrado e Doutorado. “Estas e outras considerações determinaram uma diminuição de estudantes inscritos na pós-graduação e, consequentemente, nas solicitações de bolsas à Fapesp”, acrescenta.

A Fapesp concede diversas modalidades de bolsas para a formação de estudantes em Instituições de Ensino Superior Públicas ou Privadas e Institutos de Pesquisa e Centros Tecnológicos, com sede no estado de São Paulo. Bolsas de estágio de pesquisa no exterior (BEPE) para esses estudantes também são concedidas e podem ou não estar vinculadas a Auxílios à Pesquisa concedidos pela Fundação. Além disso, também são concedidas bolsas de pesquisa no exterior (BPE) destinada a pesquisadores com título de doutor ou qualificação equivalente.

Mello informa que nos últimos anos, as solicitações de bolsas (vinculadas ou não a auxílios) têm uma pequena variação anual. Em 2019, foram solicitadas na Fapesp 1.818 bolsas de Pós-Doutorado; 2.051 de Doutorado; 340 de Doutorado Direto; 2.508 de Mestrado e 3.416 de iniciação científica.

Concessão de bolsas X estratégias

A concessão de bolsas de estudos pela Fundação está limitada segundo objetivos e metas específicos. Além de promover a formação de recursos humanos em áreas estratégicas para o desenvolvimento nacional, a Fapesp aporta recursos financeiros para a implementação de projetos de pesquisa vinculados a Programas: “Os Programas são voltados a determinados temas, como bioenergia, mudanças climáticas, entre outros; à pesquisa em parceria com empresas ou a pesquisa sobre políticas públicas, além de conceder auxílios para a modernização da infraestrutura de pesquisa e divulgação científica”, comenta o Diretor.

Pautada por essas questões, além de obedecer às definições na proposta orçamentária anual, a Fapesp necessita limitar o número de concessão de bolsas de estudos, ao contrário do que ocorria décadas atrás, quando não havia esses parâmetros: “Àquela época havia uma conjuntura de escassez de recursos federais conjugada à alternativa de solicitações à Fapesp , o que fez com que a taxa de concessão de recursos em bolsas superasse os 50% dos recursos aportados pela Fapesp”, explica Mello.

Em 2019, a relação na Fapesp de bolsas regulares e bolsas concedidas como item orçamentário nos auxílios foi de: 3 x 1 para Pós-Doutorado; 3,5 x 1 Doutorado e Mestrado; 1,5 x 1 Doutorado Direto e Iniciação Científica.

Para o biomédico Brunno Câmara, o desafio principal dos aspirantes a pós-graduações é a quantidade de vagas, considerando a quantidade de profissionais que se formam todos os anos. Mas, sempre há possibilidades, aponta Câmara, citando seu próprio exemplo: “Fiz minha graduação com bolsa integral do Prouni e a residência com bolsa do Ministério da Educação”.

O fato é que a redução das bolsas ofertadas reflete um cenário geral, ocorrido também em outros órgãos de fomento, como CNPq e CAPES. Diante desse contexto, a questão é entender como os processos de seleção para bolsas podem melhorar.

Com doutorado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o também biomédico Fernando Toshio Ogata, cita dois pontos: o primeiro seria melhorar a divulgação da pesquisa, como a Fapesp tem feito em algumas linhas de fomento. “Acredito que desta forma a população em geral poderia incentivar políticas públicas que apoiam a ciência”. O segundo seria fazer com que as agências de fomento não dependessem exclusivamente de financiamento público: “Apesar do financiamento público ser fundamental para garantir a existência destes centros de pesquisa, o financiamento poderia ser aumentado caso as pessoas físicas ou jurídicas pudessem doar recursos para áreas específicas, aos moldes do que temos nos EUA, por exemplo”, propõe.

Ogata reconhece que existe uma grande infraestrutura no Brasil, a maioria concentrada em universidades públicas, que ele considera ilhas de excelência. Mas sua experiência em especializações em outros países foi importante para poder pontuar as diferenças.

Optar por estudos em outro país

A convite de um cientista sueco, Ogata partiu para o país nórdico para completar o doutorado e, posteriormente, o pós-doutorado. “Na Suécia, os pós-graduandos são considerados trabalhadores de pesquisa. Esse foi um dos maiores choques comparado ao Brasil. Todos são amparados por leis e regulamentos, o que torna o desenvolvimento do projeto mais profissional”. O biomédico cita ainda o benefício das perspectivas que um grande centro de pesquisa oferece.

Os valores das bolsas também geram questionamentos. No Brasil, os estudantes não são considerados trabalhadores, por isso, as bolsas não podem ser vistas como salários, como ressalta o Diretor da Fapesp: “O objetivo da bolsa de estudo é conceder apoio financeiro para que os estudantes alcancem seus objetivos acadêmicos visando seu futuro profissional na área da Ciências & Tecnologia e sua contribuição para a sociedade”.

Biomédicas: quais as possibilidades?

Para os estudantes que buscam um direcionamento na área, a saúde humana figura como uma das grandes apostas, de acordo com Luiz Eugênio Mello. Fatores como envelhecimento da população relacionado à qualidade de vida, assim como doenças de grande relevância para a humanidade, por serem de grande prevalência, gravidade, subdiagnosticadas ou de difícil tratamento podem ser citadas como grandes alvos da pesquisa em área de Saúde ou nas áreas básicas relacionadas, como ressalta Mello.

A pandemia também trouxe novos desafios aos profissionais da área, tornando-se premente uma maior atenção às condições pré-existentes que podem ser fatores de risco para o quadro de infecção por SARSs-CoV-2, como doenças cardiovasculares e respiratórias, obesidade e câncer e a transtornos que podem decorrer ou ser agravados pelo caos social imputado pela pandemia, como transtornos mentais e outras doenças relacionadas ao estresse. “Essas condições necessitam de esforços para o entendimento de seus mecanismos, busca de biomarcadores e o desenvolvimento de fármacos eficazes e que sejam bem tolerados pelo organismo humano”, detalha Mello.

Áreas relacionadas ao meio ambiente, à sustentabilidade e à inteligência artificial em saúde também despontam como favoráveis às pesquisas científicas interdisciplinares e tecnológicas.

Para Câmmara, a Patologia Clínica ainda é uma área que oferece muitas oportunidades aos biomédicos, assim como a biomedicina estética, o diagnóstico molecular de doenças infecciosas, que deve se popularizar por conta da pandemia. “Quem souber trabalhar com as técnicas como PCR e suas variações, e sequenciamento genômico terá grandes oportunidades no mercado de trabalho e pesquisa científica”, prevê.

Especializações online

Com a grande expansão dos serviços para o universo online, as especializações também aparecem como alternativas, mas os especialistas acreditam que para áreas que exigem prática e experiências de bancada, podem não ser muito recomendadas. “Existem duas situações em que eu faria uma especialização online. A primeira seria se eu já atuasse na área, tivesse a experiência prática e precisasse da complementação teórica. A segunda seria se eu quisesse conhecer uma nova área, para uma possível futura transição de carreira”, coloca o Bruno Câmmara. Responsável por uma empresa de cursos online na área de biomedicina, o biomédico ressalta que um vídeo de prática ou simulação online nunca terá o mesmo efeito de uma prática presencial.

Professor universitário, Ogata compartilha da mesma opinião e acrescenta que as aulas remotas são importantes para conectar professores/educadores aos  recursos multimídia que eventualmente seriam limitados em sua instituição de ensino; além disso, alguns cursos gravam as aulas e os alunos podem consultar este material como suporte para estudo. “Mas as atividades práticas são marcantes e elas são insubstituíveis”, visualiza. O profissional ainda enfatiza que é muito difícil, senão impossível, substituir a relação aluno-professor construída em sala de aula.

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