Recentemente, uma pesquisa divulgada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, apontou a presença de toxinas, como microcistinas e cilindrospermopsinas em hortaliças amplamente consumidas pela população em doses muito altas. Essas toxinas, se ingeridas além da tolerância diária permitida, têm apresentado uma série de malefícios aos seres humanos, como efeitos genotóxicos, carcinogênicos e danos ao fígado.

A professora da Esalq/USP, Maria do Carmo Bittencourt de Oliveira, responsável pelos estudos, explica que o objetivo da pesquisa é quantificar a presença dessas cianotoxinas, em alface e rúcula, em princípio. “Nos ambientes aquáticos, essas toxinas possuem papel importante na cadeia alimentar como produtores primários destacando, dessa forma, a sua participação na comunidade fitoplanctônica”, lembra a professora.

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Vegetais cultivados com água contaminada podem ser uma nova rota de contaminação alimentar para os seres humanos. (foto: morguefile)

Relatos de bioacumulação de microstinas em diversos organismos aquáticos, tais como peixes e plantas aquáticas e, mais recentemente, estudos que simularam a presença do contato de hortaliças (alface) com essas toxinas foram o ponto de partida para o início dos estudos, uma vez que as concentrações de microcistinas utilizados estavam muito acima do encontrado comumente em águas (Crush et al. 2008). “Daí veio a ideia de testar baixas concentrações de toxinas, ou seja, aquelas que podem estar presentes em corpos d´água sem que houvesse eventos de florações e verificar se havia acúmulo e se este poderia ultrapassar a ingestão diária tolerável para seres humanos (TDI) de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS)”, explica a pesquisadora.

Como até o momento não há uma regulamentação sob a procedência e controle de cianotoxinas na água de irrigação de horticulturas, bem como não há no Brasil uma legislação específica para controle de cianotoxinas em produtos da agricultura, já que é uma rota de exposição e contaminação ainda pouco estudada, Maria do Carmos ressalta que “a exposição de vegetais cultivados com a utilização de água contaminada com cianotoxinas representa um aumento no risco de contaminação dos alimentos e, consequentemente, uma nova rota de contaminação alimentar para os seres humanos”.

Confira a entrevista da pesquisadora para o LabNetwork:

LabNetwork: Nesse atual estudo vocês ampliaram a gama de cianotoxinas estudadas, sendo que a hepatotoxina cilindrospermopsina é bem menos conhecida. Existe uma explicação para isso? Quais são as consequências de sua ingestão?
Profa. Maria do Carmo: No Brasil, a presença da cilindrospermopsina em água de reservatórios de abastecimento público foi determinada apenas recentemente, por métodos imunoquímicos e moleculares, por outro estudo do nosso grupo (BITTENCOURT-OLIVEIRA et al., 2011). A toxina cilindrospermopsina foi encontrada em três reservatórios do estado de Pernambuco, os quais são utilizados para abastecimento público. Justamente na região Nordeste, onde a população do entorno desses corpos d´água utilizam essa água diretamente em suas lavouras. No mundo existem poucos estudos sobre a cilindrospermopsina e seus efeitos em plantas e animais. Em mamíferos, os efeitos da cilindrospermopsina têm se demonstrado genotóxicos e carcinogênicos (FALCONER e HUMPAGE, 2006), além de inibição da síntese da glutationa e proteínas em geral (RUNNEGAR et al., 1994; 1995) e, em ensaio com camundongos, afeta principalmente o fígado (SIVONEN e JONES, 1999).

LabNetwork: Como é o processo de análises dessas hortaliças? Quais técnicas são utilizadas?
Profa. Maria do Carmo: O processo de análise das cianotoxinas é realizado geralmente nos tecidos foliares, ou a parte comestível dos vegetais. Existem várias técnicas para análise de cianotoxinas. Em vegetais, um dos testes de toxicidade mais utilizados é o ensaio imunoenzimático (ELISA) por apresentar elevada sensibilidade de análise, detectando dessa forma, quantidades mínimas de toxinas nos tecidos analisados. Porém, este método, teoricamente, pode detectar não apenas a molécula matriz, como também os produtos derivados caso a molécula seja quebrada. Atualmente os métodos físico-químicos, tais como Cromatografia Líquida e Espectrometria de Massas (LC-MS/MS) são os mais recomendados para este tipo de análise pois detecta e quantificam apenas a molécula matriz da toxina evitando assim a superestimativa dos resultados.

LabNetwork: Qual a previsão para a conclusão dos estudos?
Profa. Maria do Carmo: Nossos estudos com alface e rúcula têm previsão de duração até 2015, mas até meados de 2014 teremos novos resultados. Posteriormente, pretendemos abranger os estudos com outros produtos vegetais, para que, com resultados mais robustos e conclusivos possamos alertar, se for o caso, as autoridades competentes.

Referências

BITTENCOURT-OLIVEIRA, M.C.; Piccin-Santos,V.; Kujbida, P.; Moura, A.N. Cylindrospermopsin in water supply reservoirs in Brazil determined by immunochemical and molecular methods. Journal of Water Resource and Protection, v.3, p.349-355, 2011.

CRUSH, J. R.; BRIGGS, L. R.; SPROSEN, J. M.; NICHOLS; S. N. Effect of irrigation with lake water containing microcystins on microcystin content and growth of ryegrass, clover, rape, and lettuce. Environmental Toxicology, v. 23, p. 246-252, 2008.

FALCONER, I.R.; HUMPAGE, A.R. Cyanobacterial (blue-green algal) toxins in water supplies: cylindrospermopsins. Environmental Toxicology, v.21, p.299-304, 2006.

RUNNEGAR, M.T.C.; KONG, S.M.; ZHONG, Y.Z.; GE, J.L.; LU, S.C. The role of glutathione in the toxicity of a novel cyanobacterial alkaloid cylindrospermopsin in cultured rat hepatocytes. Biochemical and Biophyical Research Communications, v.201, p.235-241, 1994.

RUNNEGAR, M.T.C.; KONG, S.M.; ZHONG, Y.Z.; LU, S.C. Inhibition of reduced glutathione synthesis by cyanobacterial alkaloid cylindrospermopsin in cultured rat hepatocytes. Biocheical. Pharmacology, v.49, p.219-225, 1995.

SIVONEN, K.; JONES, G. Cyanobacterial toxins. In: CHORUS, I. & BARTRAM, J. (Orgs.). Toxic cyanobacteria in water: A guide to the Public Health Consequences, Monitoring and Management. J.E and FN Spon, London, 1999. pp. 41-111.

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