Usando lipidômica de alto rendimento, os pesquisadores identificaram 282 lipídios diferentes, 69 dos quais associados a pelo menos uma das duas doenças (doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2)

Ramo da metabolômica, a lipidômica é usada para a caracterização completa de todos os lipídios e seus metabólitos no organismo. Na análise lipidômica também são combinados métodos cromatográficos e espectroscópicos, o que permite distinguir lipídios muito semelhantes entre si.

Um estudo na Alemanha que utilizou lipidômica em amostras de soro identificou vários lipídios associados ao risco de apresentar doenças cardiometabólicas e que podem servir como marcadores para diagnóstico de problemas cardiovasculares e diabetes tipo 2.

No mesmo estudo, os pesquisadores verificaram que uma dieta com aumento na proporção de ácidos graxos insaturados reduz os lipídios associados ao alto risco e aumenta os relacionados ao baixo risco.

Doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo – cerca de 18 milhões por ano. Dados de 2021 estimam que há 537 milhões de pessoas com diabetes no mundo. No Brasil, calcula-se que são cerca de 16,8 milhões. Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, aproximadamente 90% dos diabéticos apresentam o tipo 2. Para estas pessoas, o risco de sofrer infarto do miocárdio ou derrame é de duas a três vezes maior.

Estudos anteriores mostraram que doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2 estão intimamente ligadas ao metabolismo lipídico. A análise lipidômica vem sendo usada há anos para decifrar essas relações em nível molecular.

A pesquisa foi realizada no Instituto Alemão de Nutrição Humana (DifE) do Centro Alemão de Pesquisa em Diabetes (DZD). A equipe avaliou os perfis de ácidos graxos em 2.414 amostras de sangue do European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC), estudo desenvolvido entre 1992 e 1999, que envolveu 23 instituições de dez países da Europa ocidental.

A maioria das amostras analisadas pela atual pesquisa do DifE foi coletada do EPIC, mas algumas vieram de participantes que, nos anos subsequentes, desenvolveram doenças cardiovasculares ou diabetes tipo 2.

Usando lipidômica de alto rendimento, os pesquisadores identificaram 282 lipídios diferentes, 69 dos quais associados a pelo menos uma das duas doenças. Vários monoacilgliceróis e ácidos de 16 a 18 cadeias em diacilgliceróis foram associados às duas. Ésteres de colesterol, ácidos graxos livres e esfingolipídios eram, em grande parte, específicos para doenças cardiovasculares, enquanto vários glicerofosfolipídios eram específicos para diabetes tipo 2.

Fabian Eichelmann, autor principal e pesquisador do DifE

“Uma associação estatística com doenças cardiovasculares foi encontrada para 49 lipídios, que pertenciam principalmente aos ésteres de colesterol e esfingolipídios. Doze lipídios foram associados ao diabetes tipo 2, a maioria destes era composta por glicerol e fosfolipídios. Uma associação com ambas as doenças foi observada para oito lipídios, entre os quais se destacaram vários monoacilglicerídeos”, diz Fabian Eichelmann, autor principal e pesquisador do DifE.

Ramo da metabolômica, a lipidômica é usada para a caracterização completa de todos os lipídios e seus metabólitos no organismo. Na análise lipidômica também são combinados métodos cromatográficos e espectroscópicos, o que permite distinguir lipídios muito semelhantes entre si.

Efeito de alterações na dieta

Os pesquisadores também queriam descobrir se os lipídios associados ao risco poderiam ser influenciados por alterações na composição de ácidos graxos da dieta. Para isso, foi realizado um estudo de 16 semanas em parceria com uma equipe da Universidade de Reading, na Inglaterra.

Chefiados pela pesquisadora Julie Lovegrove, os britânicos recrutaram 113 voluntários, homens e mulheres entre 21 e 60 anos, e os dividiram aleatoriamente em três grupos. O primeiro recebeu uma dieta com maior quantidade de ácidos graxos saturados. Para o segundo, foi fornecida alimentação rica em ácidos graxos monoinsaturados. A dieta do terceiro grupo era rica em ácidos graxos monoinsaturados e poli-insaturados.

Para evitar que os participantes não ganhassem nem perdessem peso, as dietas foram preparadas de modo que a ingestão total de energia fosse a mesma nos três grupos.

Foram coletadas amostras de sangue no início do estudo e quatro meses depois, com o objetivo de comparar os perfis de ácidos graxos no plasma dos participantes.

“Descobrimos que as dietas com maior proporção de ácidos graxos insaturados proporcionaram redução nos lipídios associados ao risco e, ao mesmo tempo, aumento nos lipídios de baixo risco, em comparação com a dieta com maior proporção de ácidos graxos saturados”, conta Lovegrove.

Segundo os pesquisadores, os resultados reforçam a recomendação comum de que a substituição de ácidos graxos saturados por ácidos graxos insaturados na dieta é importante para prevenir doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2.

“Os lipídios identificados podem servir como marcadores de risco aumentado. Modelos futuros de previsão de risco podem ser baseados neles”, diz Matthias Schulze, chefe do Departamento de Epidemiologia Molecular e principal pesquisador do EPIC no DifE.

De acordo com Fabian Eichelmann, o próximo passo da pesquisa é identificar uma “impressão digital” lipidômica no sangue que descreva os efeitos de uma dieta-teste e verificar se ela está associada ao risco de doença cardiovascular a longo prazo.

O artigo Deep Lipidomics in Human Plasma – Cardiometabolic Disease Risk and Effect of Dietary Fat Modulation foi publicado online em 15 de abril de 2002 no periódico Circulation.

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doenças cardiometabólicas, lipidômica, marcadores

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