Grupo de professor visitante na UFMG percorreu três estados e o Distrito Federal em laboratório móvel

Um motorhome foi transformado em laboratório de sequenciamento genético e viajou durante 17 dias para coletar amostras e treinar técnicos de laboratórios de saúde pública

O conceito de Pesquisa e Inovação Responsável (RRI, de Responsible Research and Innovation, em inglês) é uma abordagem que valoriza as interações entre ciência e sociedade. Uma pesquisa científica que aplica os preceitos de RRI deve respeitar cinco princípios-chave: educação, acesso aberto, ética, engajamento social e igualdade de gênero.

Fomentar a concepção de investigação científica inclusiva e sustentável é o desafio dos pesquisadores que tentam incluir os preceitos da RRI em seus trabalhos. Esse é o caso do professor Luiz Alcântara, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que atua como docente visitante no Laboratório de Genética Celular e Molecular, coordenado pelo professor Vasco Azevedo, do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.

O grupo de pesquisa de Luiz Alcântara e pesquisadores de diversas instituições acabam de publicar o artigo Field and classroom initiatives for portable sequence-based monitoring of dengue virus in Brazil, em que apresentam a estratégia utilizada para implementar os princípios do RRI durante as atividades de vigilância genômica dos arbovírus circulantes em tempo real. Esses agentes são transmitidos por mosquitos que se alimentam de sangue.

“A ideia era incluir os cinco itens do RRI nas atividades do nosso estudo sobre o vírus da dengue. Fizemos o mapeamento genético dos surtos de dengue no período considerado, usando uma tecnologia nova de sequenciamento. Todo o trabalho contou com a participação de pessoas que trabalham com a dengue em laboratórios de saúde pública e estudantes de pós-graduação”, explica Alcântara.

O pesquisador conta que, para implementar o RRI, foi formada uma equipe integradora baseada na igualdade de gênero. Além disso, ao longo de toda a pesquisa, o grupo trabalhou para oferecer os dados em plataformas de acesso aberto e desenvolveu programas de qualificação profissional para os profissionais de saúde locais, a fim de disseminar o conhecimento por meio da transferência de tecnologia.

“Os resultados apresentados no artigo indicam o sucesso da implementação da estratégia de RRI no Brasil e demonstram que a vigilância genômica aliada à transferência de tecnologia e à capacitação resultou em importante contribuição em ciência e tecnologia, gerando mais benefícios para a sociedade”, diz.

Ele acrescenta que a aplicação do RRI propiciou que a sociedade se aproximasse da ciência tanto por meio da divulgação científica quanto do treinamento dos técnicos que atuam nos laboratórios. “Enviávamos relatórios às secretarias de saúde, capacitávamos os técnicos e os ajudávamos a ingressar na pesquisa científica. Só em Minas Gerais, dois técnicos e pesquisadores do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), capacitados por nós, acabaram ingressando na pós-graduação e hoje concluem seus doutorados, um na área de genética e o outro na de bioinformática”, exemplifica o pesquisador.

Pesquisa genômica

Os cinco preceitos de RRI foram aplicados na investigação sobre a diversidade genômica e a dinâmica de transmissão do vírus da dengue nas regiões Centro-oeste, Sudeste e Nordeste. As análises foram feitas por meio de um aparelho portátil, chamado minION, introduzido no Brasil por Alcântara.

O grupo de pesquisadores equipou um laboratório móvel para fazer o trabalho em duas etapas. A primeira delas ocorreu em 2019, quando um motorhome foi transformado em laboratório de sequenciamento genético e viajou durante 17 dias para coletar amostras e treinar técnicos de laboratórios de saúde pública em Goiás, no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. Na segunda etapa do estudo, profissionais do Brasil e do exterior foram treinados para sequenciamento e análise genômica na Fundação Ezequiel Dias (Funed), em Belo Horizonte.

O treinamento incluiu todas as tarefas de vigilância, desde o sequenciamento até as análises computacionais, além da redação do manuscrito relacionado aos resultados das atividades.

“Das 248 amostras que usamos, montamos o genoma de 227, sendo 57 de dengue tipo 1 e 170 de dengue tipo 2. Depois disso tudo, procuramos compreender como nosso trabalho contribuiu no Brasil para mapear a dengue. Em relação à dengue 1, o primeiro genoma surgiu em 1988. De lá pra cá, 55% das descrições de genomas foram feitas por nós. Quando falamos da dengue 2, os primeiros sequenciamentos ocorreram em 1990. Nesse caso, fomos responsáveis por 60%. A vigilância genômica de dengue cresceu muito no Brasil, e conseguimos, em tempo real, contribuir bastante para isso”, afirma o pesquisador.

O pesquisador explica que o trabalho de vigilância genômica é importante porque possibilita investigar a epidemiologia molecular. Esse tipo de trabalho também pode ser usado para monitorar várias doenças, visto que a junção de dados genômicos e epidemiológicos propicia o uso de modelos para calcular os riscos para a ocorrência de surtos.

“Quando fazemos análises evolutivas de um genoma, retornamos ao passado e podemos inferir a origem daquele surto da doença. Isso nos possibilita tomar medidas de controle e de vigilância epidemiológica. Podemos imaginar que um vírus chegou quando os sintomas apareceram, mas, na maioria das vezes, ele chegou antes e estava silencioso. É importante que o país faça vigilância nos indivíduos infectados e, no caso da dengue, nos vetores”, conclui Luiz Alcântara.

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dengue, Pesquisa e Inovação Responsável, vigilância genômica dos arbovírus circulantes em tempo real

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