Níveis baixos de neuropeptídeo no LCR de recém-nascidos estão associados ao transtorno

Segundo os pesquisadores, os níveis de vasopressina em sete das nove amostras previram corretamente quais crianças desenvolveriam o transtorno

Pesquisadores das universidades de Stanford e de Washington em St Louis (EUA) verificaram que níveis muito baixos do neuropeptídeo arginina vasopressina no líquido cefalorraquidiano (LCR) de recém-nascidos podem indicar a ocorrência de autismo meses ou até anos antes de surgirem os sintomas desse transtorno.

O estudo foi realizado com amostras de LCR coletadas e armazenadas de 913 bebês entre zero e três meses de idade que apresentavam febre e foram atendidos na ocasião com suspeita de meningite. As amostras haviam sido guardadas à temperatura de -70ºC visando estudos posteriores.

Depois de analisar o material e os registros médicos, os pesquisadores identificaram 11 bebês que foram diagnosticados anos depois, na infância, com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) — nome técnico dessa condição. Desse grupo, nove amostras do LCR eram grandes o bastante para serem testadas e possuíam níveis significativamente mais baixos de vasopressina. Cada uma foi comparada com outras duas de controle obtidas de crianças cujo prontuário médico não apresentava diagnóstico de TEA aos 12 anos.

Segundo os pesquisadores, os níveis de vasopressina em sete das nove amostras previram corretamente quais crianças desenvolveriam o transtorno. As outras duas eram de bebês que foram diagnosticados posteriormente com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

“Quando crianças pequenas não estão processando adequadamente os estímulos sociais básicos no início da vida, isso coloca seus cérebros em uma trajetória de desenvolvimento diferente”, explica Karen Parker, coautora do estudo, PhD e professora associada de Psiquiatria e Ciências do Comportamento em Stanford.

De acordo com ela, embora o TEA possa ser diagnosticado a partir de sintomas comportamentais por volta de dois anos de idade, a falta de especialistas nesse transtorno geralmente atrasa o diagnóstico até os quatro anos ou mais e faz com que a criança perca os benefícios do tratamento precoce. “Se pudéssemos identificar essas crianças mais cedo, poderíamos intervir mais cedo”, diz Parker.

“Esse biomarcador de neuropeptídeos pode ser detectado muito antes dos sintomas clínicos e, se confirmado, será possível iniciar precocemente intervenções em crianças que desenvolverão o transtorno, abrindo ainda mais a possibilidade de estratégias farmacêuticas para aumentar os níveis de neuropeptídeos e, potencialmente, impedir alguns problemas associados ao autismo”, avalia o médico e coautor John Constantino, diretor da Divisão de Psiquiatria da Criança e do Adolescente na Washington University.

Os autores concordam que o estudo envolveu um número pequeno de amostras. Por isso, planejam ampliá-lo para verificar se conseguem replicar os resultados em um grupo maior. Também pretendem pesquisar a existência de um biomarcador no sangue para diagnóstico precoce em bebês porque nestes a coleta de LCR é um procedimento difícil e provoca muito desconforto na criança.

Outra frente de ação da equipe é analisar amostras de LCR de crianças com distúrbios neuromusculares que têm um componente neurológico, mas que não comprometem as habilidades sociais. Com isso, pretendem verificar se os níveis baixos de vasopressina no LCR são específicos para TEA.

O artigo Neonatal CSF vasopressin concentration predicts later medical record diagnosis of autism spectrum disorder foi publicado em 27 de abril deste ano em Proceeding of the National Academy of Sciences (PNAS).

Estudos anteriores

A pesquisadora Karen Parker

A vasopressina é um hormônio proteico com nove aminoácidos. Já foi verificado que afeta os comportamentos sociais em mamíferos machos, como a união de pares e a paternidade. Ele difere em apenas dois aminoácidos da ocitocina, outro hormônio proteico que também desempenha funções sociais.

Um estudo anterior coordenado por Karen Parker já havia verificado que crianças e adolescentes com sintomas graves de TEA apresentavam concentração muito baixa de vasopressina no LCR, mas não encontraram relação entre autismo e os níveis de ocitocina.

Também em estudos anteriores, a equipe de Parker demonstrou que a administração de vasopressina em crianças com TEA melhora sua capacidade social, enquanto os testes com ocitocina não forneceram resultados consistentes.

Faltam dados

Segundo o Manual de Orientação do Transtorno do Espectro do Autismo, publicado em abril de 2019 pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em algumas crianças os sintomas do Transtorno do Espectro do Autismo podem ser notados logo após o nascimento, mas “ocorre, em média, aos quatro ou cinco anos de idade”.

De acordo com a publicação online Revista Autismo, não existem dados consistentes sobre a prevalência do autismo no Brasil. Em 2011, houve um estudo piloto na cidade de Atibaia (SP), feito em um bairro com 20 mil habitantes, que mostrou a existência de 1 caso para cada 367 habitantes, ou 27,2 por 10 mil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que no país possa haver mais de 2 milhões de pessoas com esse transtorno.

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autismo, líquido cefalorraquidiano, neuropeptídeo arginina vasopressina

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