O Torque Teno Vírus é um pequeno vírus não patogênico, presente em vários fluidos corporais de indivíduos aparentemente saudáveis, que têm seus níveis alterados em caso de infecções 

Os resultados mostraram que, quanto maior a carga viral do TTV na saliva, mais tempo as pessoas permaneciam doentes

Um biomarcador, conhecido como Torque Teno Vírus (TTV), se mostrou potencialmente útil para avaliar a intensidade da infecção pelo SARS-CoV-2 e prever a evolução da doença. O estudo revelou que a quantidade de TTV na saliva pode mostrar, também, o estado imunológico do paciente. Participaram pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP, Faculdade de Medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), Faculdade de Odontologia (FO) da USP e da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos.

Foram avaliadas amostras de saliva de 91 moradores de São Caetano do Sul, no ABC Paulista, infectados pelo SARS-CoV-2 (confirmado por RT-PCR) e de outras 126 pessoas com síndrome gripal (também moradores do município) que testaram negativo para o vírus entre 5 e 30 de maio de 2020. Os resultados mostraram que, quanto maior a carga viral do TTV na saliva, mais tempo as pessoas permaneciam doentes. Além disso, a queda na quantidade de vírus na saliva foi associada à diminuição e resolução dos sintomas.

Já em indivíduos não infectados pelo SARS-CoV-2, a concentração de TTV manteve-se estável durante todo o período sintomático.

O Torque Teno Vírus (TTV) é um pequeno vírus de DNA de fita simples, não patogênico, presente em vários fluidos corporais de indivíduos aparentemente saudáveis. Se o sistema imune se altera, a quantidade de TTV aumenta. Por essa razão, o cálculo da titulação de TTV mostrou ser um indicador de possível rejeição após o transplante de órgãos. Além disso, sua detecção também tem sido utilizada como marcador da função imunológica em doenças crônicas, como cirrose hepática.

“Levantamos, então, a hipótese de que a medida da carga viral do TTV poderia ser um biomarcador do status imune do paciente infectado pelo SARS-CoV-2”, explica Tania Regina Tozetto-Mendoza, bióloga do Laboratório de Virologia do Departamento de Moléstias Infecciosas da FMUSP e primeira autora do estudo. “O coronavírus provoca um déficit imunológico, o que poderia levar a um certo grau de imunodepressão, e isso favoreceria a replicação do TTV na saliva.”

Um artigo, com todos os detalhes da pesquisa, foi  publicado em 24 de agosto na revista PlosOne.

Testes de diagnóstico

O estudo prospectivo observacional utilizou amostras de saliva e de swab de nasofaringe de participantes do Programa Corona São Caetano, uma iniciativa de atenção básica que oferece atendimento a todos os moradores da cidade do ABC Paulista. Os pacientes com suspeita de Covid-19 eram convidados a preencher um formulário de triagem, que incluía informações sobre tipo, início e duração dos sintomas. Aqueles com suspeita de Covid-19 foram contatados por um estudante de medicina e, depois de uma avaliação de risco, receberam os médicos na própria residência para coleta de material e posterior análise.

Os voluntários eram, em sua maioria, do sexo feminino (91 positivos para o SARS-CoV-2 e 126 negativos) e a idade média foi de 43 anos e 41 anos em participantes positivos e negativos, respectivamente. Quanto aos sintomas relatados, a prevalência de febre (temperatura maior que 37,5º) e perda de olfato foi maior em indivíduos infectados, enquanto dor de garganta, fadiga e diarreia foram mais comuns nos controles.

Entre os pacientes com Covid-19, a perda do olfato foi mais frequente nos homens (78%) do que nas mulheres (53%). A febre também foi mais comum nos pacientes do sexo masculino com Covid-19 (56% versus 38% no feminino).

O TTV foi identificado na saliva de 55% dos indivíduos positivos para SARS-CoV-2 e em 63% dos controles. Nos primeiros nove dias após o início dos sintomas, o título de TTV foi relativamente constante. No entanto, a partir do décimo dia, o nível de TTV foi bastante reduzido nos indivíduos infectados, mas permaneceu inalterado nos controles.

As análises individuais de pacientes soropositivos mostraram uma diminuição acentuada nos títulos de TTV conforme os sintomas foram resolvidos, além da redução nos níveis de SARS-CoV-2.

Com todos esses resultados, os cientistas acreditam que a medição de TTV na saliva ao longo do tempo em indivíduos com Covid-19 pode ser usada para apontar o estado imunológico de pacientes e avaliar, com mais precisão, a evolução da doença.

“Esses achados são preliminares e se dirigem à busca de testes de diagnóstico e prognóstico cada vez mais sensíveis e assertivos”, relata Tania. “O nosso objetivo maior é compor um algoritmo de marcadores que possam ser avaliados pela saliva”, conclui. Com informações da USP

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biomarcador, SARS-CoV-2, Torque Teno Vírus (TTV)

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