Pesquisa apresenta abordagem menos invasiva e de menor custo para diagnóstico de gliomas

Na abordagem proposta pela equipe do MSK, a biópsia líquida é feita em amostras do LCR coletadas por punção lombar para detectar o DNA circulante (ctDNA) do tumor

Um estudo feito no Memorial Sloan Kettering Cancer Center (MSK), dos EUA,  sugere uma abordagem diferente da usual para o diagnóstico de tumores no cérebro. Ao invés da biópsia “tradicional”, em que são analisados tecidos da região afetada, os pesquisadores propõem realizar biópsia líquida. A novidade, segundo eles, é que são examinadas amostras do líquido cefalorraquidiano (LCR) do indivíduo.

A pesquisa, publicada na revista Nature, se concentrou nos gliomas difusos, que são tumores cerebrais malignos mais comuns em adultos e incluem glioblastomas e tumores de grau II e grau III, segundo classificação da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os autores destacam que a análise do perfil genético do tumor é importante para classificar a doença e orientar o tratamento. Mas fazer isso utilizando tecidos do cérebro do paciente implica em um processo muito invasivo e de alto custo. E há casos em que é que necessário repeti-lo diversas vezes para se conseguir uma genotipagem precisa que permita acompanhar a evolução da doença.

Na abordagem proposta pela equipe do MSK, a biópsia líquida é feita em amostras do LCR coletadas por punção lombar para detectar o DNA circulante (ctDNA) do tumor. A coleta realizada mais de uma vez permite obter um panorama detalhado das mutações do tumor. Além de ser menos invasiva que a retirada de tecidos, é mais simples e de menor custo.

Alexandra Miller

De acordo com a neurologista e coautora do estudo Alexandra Miller, o ctDNA do tumor cerebral não é liberado facilmente no sangue devido a uma barreira hematoencefálica. Ela diz que é muito mais confiável detectá-lo no LCR.

“Nosso estudo mostra que podemos usar uma amostra do líquido cefalorraquidiano para observar alterações moleculares em um tumor em cerca de 50% das pessoas com gliomas recorrentes. Sabemos que tumores evoluem no curso da doença. Nossa abordagem pode ser uma caminho para rastrear e compreender as mutações que levam à progressão dos gliomas e também ajudar no desenvolvimento de novas drogas”, acrescenta Miller.

Estudo retrospectivo

Foi realizada biópsia líquida no LCR de 85 indivíduos que haviam apresentado glioma após tratamento. O ctDNA foi encontrado em 42 (49,4%). Ao verificar os registros médicos dos pacientes e as informações das biópsias em tecidos, os pesquisadores descobriram que aqueles com ctDNA no líquido cefalorraquidiano eram mais propensos a ter formas agressivas de glioma e apresentavam quatro vezes mais possibilidades de morrer devido à doença.

“Nesse estudo retrospectivo que fizemos encontramos uma ampla gama de alterações genéticas, a maioria estava presente em biópsias de tecidos feitas no tumor no momento do diagnóstico. Mas algumas alterações apareceram apenas no tumor cerebral primário ou no ctDNA. Isso confirma que a doença evoluiu entre as biópsias”, explica o geneticista Michael Berger, coautor do artigo.

Ingo Mellinghoff

“Esperamos que esta abordagem nos ajude a diagnosticar os gliomas que não podem passar por biópsia”, diz o oncologista e coautor Ingo Mellinghoff, que liderou o estudo juntamente com Berger. “Isso também nos ajudará a oferecer terapias direcionadas para mais pessoas com glioma, bem como monitorar a resposta do tumor à terapia”, acrescenta.

Sinal de alerta

Segundo Alexandra Miller, o monitoramento do DNA circulante do tumor no LCR pode ser um importante alerta precoce de que o tumor está voltando em pacientes que inicialmente respondem ao tratamento com cirurgia ou radioterapia. Ela espera que, a curto prazo, a detecção de mutações no ctDNA permita que mais pessoas sejam elegíveis para ensaios clínicos de terapias direcionadas.

“Quando você projeta testes clínicos para um tratamento voltado a uma mutação específica, em primeiro lugar é preciso ter certeza que a mutação está presente. No registro de ensaios clínicos, o ideal é poder obter uma amostra do LCR no momento do diagnóstico e, em seguida, confirmar que a mutação ainda está lá se a doença progredir e quisermos iniciar uma terapia direcionada”, destaca a neurologista.

Teste genético utilizado

No estudo, foi utilizado para o sequenciamento do ctDNA o MSK-Impact, teste genético desenvolvido por profissionais do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, aprovado em 2017 pela Food and Drug Administration dos EUA. Segundo o geneticista Michael  Berger, que fez parte dessa equipe, atualmente ele é usado em mais de 200 pacientes atendidos no MSK por semana.

Michael Berger

Berger explica que o teste possui tecnologia de sequenciamento de DNA de última geração. São analisados 468 genes previamente escolhidos pelos especialistas do MSK, com base no papel crítico de cada um deles no desenvolvimento e comportamento dos tumores. Estão incluídos nesse grupo todos os ​genes que fornecem informações importantes sobre a doença e suas possibilidades de serem alvo de medicamentos.

O geneticista acrescenta que o teste pode detectar muitas classes de mudanças genômicas, que incluem mutações, amplificações e deleções de genes e rearranjos genômicos nos genes de diferentes tipos de câncer, raros ou comuns.

De acordo com Berger, o MSK-Impact permite aos médicos descobrirem rapidamente se um tumor apresenta alterações que tornam o câncer vulnerável a medicamentos específicos. Os pacientes, então, são direcionados às terapias ou aos ensaios clínicos disponíveis, dependendo do que for considerado mais benéfico.

“Até recentemente, o teste genômico de tumores era rotina apenas para pessoas com certos tumores sólidos, como melanoma, câncer de pulmão e de cólon. O MSK-Impact é muito mais inclusivo e pode ser usado em qualquer tumor, não importa em que parte do corpo ele tenha começado”, afirma Michael Berger.

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biópsia líquida, diagnóstico de tumores no cérebro, líquido cefalorraquidiano

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