Análise do perfil proteômico permite detectar malignidade de diferentes tipos de tumores

O objetivo é que um teste de sangue baseado em vesículas extracelulares faça parte de um exame geral de rotina

Vesículas extracelulares (VE) são estruturas fechadas que contém RNA, proteínas, lipídios e metabólitos. Elas são liberadas no sangue por tecidos saudáveis e tecidos tumorais e seu tamanho pode variar de 30 a 5 mil nanômetros.

Com o objetivo de avaliar o potencial de biópsia líquida em VE para obter um diagnóstico precoce de diferentes tipos de câncer, pesquisadores do Memorial Sloan Kettering Cancer Center e do Weill Cornell Medicine, ambos de Nova York (EUA), estabeleceram o perfil proteômico de 426 amostras humanas de tecidos, plasma e outros fluidos corporais de pacientes com diagnóstico confirmado de 18 tipos diferentes de câncer — incluindo pâncreas, pulmão, mama, pele, cólon e cânceres pediátricos. O grupo controle era formado por amostras obtidas de indivíduos saudáveis.

Os resultados mostraram que as VE liberadas de tumores contêm determinadas proteínas que criam um ambiente favorável ao crescimento do câncer em locais distantes do tumor original. Segundo os pesquisadores, esses marcadores podem ser combinados em um painel de testes diagnósticos para detecção precoce da doença e de sua malignidade.

Por meio de técnicas de aprendizado de máquina (machine learning) e do uso de algoritmos de computador para classificar as informações, a análise de VE derivada de plasma mostrou sensibilidade de 95% e especificidade de 90% na detecção de câncer. Em tecidos, foi obtida sensibilidade de 90% e especificidade de 94%.

O artigo Extracellular vesicle and particle biomarkers define multiple human cancers foi publicado em 13 de agosto de 2020 na edição online de Cell.

Importância no prognóstico

David Lyden, especialista em hematologia e oncologia pediátrica em Weill Cornell

“Um tubo de ensaio com sangue contém bilhões de vesículas extracelulares. Isso significa que uma pessoa com câncer possui grande quantidade de vesículas extracelulares associadas à doença que podem ser examinadas para se obter um diagnóstico”, diz o médico PhD e coautor David Lyden, especialista em hematologia e oncologia pediátrica em Weill Cornell.

Segundo ele, esse estudo permite detectar a malignidade de tumores em estágio inicial. “Isso é importante especialmente nos cânceres de pâncreas e de pulmão, que raramente permitem um diagnóstico precoce. Tratá-los o mais rápido possível aumenta as chances de conseguir resultados melhores para os pacientes”, destaca Lyden.

Ele acrescenta que até 5% de todos os pacientes com câncer têm metástase maligna sem que se possa detectar o tumor primário nem identificar seu tipo. A análise de VE no sangue representa uma ferramenta importante para que  os médicos possam estabelecer os tratamentos mais adequados para esses casos.

“Nossas descobertas mostram a importância prognóstica e funcional das VE derivadas de tumor para monitorar a progressão da doença, sua regulação imunológica e metástase”, explica Ayuko Hoshino, autor principal do estudo e professor assistente de biologia molecular em pediatria em Weill Cornell e professor associado do Instituto de Tecnologia de Tóquio (Japão).

“Diagnosticar precocemente um câncer com base em um exame de sangue é como encontrar um ‘Santo Graal’ na medicina oncológica”, diz o médico e coautor William Jarnagin, chefe do Departamento Hepatopancreatobiliar do Memorial Sloan Kettering Cancer Center.

“Precisamos pesquisar mais para que esse método possa ser usado como uma ferramenta de triagem. Mesmo que ele se torne um teste padrão, não vai dispensar a realização de tomografias e ressonâncias magnéticas para confirmar o local do tumor”, explica Jarnagin. “Mas será um grande avanço usar um exame de sangue para descobrir quem apresenta risco para um certo tipo de câncer, porque poderemos direcionar as investigações para esses pacientes.

Os pesquisadores planejam validar os resultados em um estudo de coorte maior de pacientes com e sem câncer. Também pretendem comparar a especificidade e a sensibilidade desse método com os testes diagnósticos já aprovados pela Food and Drug Administration (FDA), dos EUA.

“O objetivo é que um teste de sangue baseado em vesículas extracelulares faça parte de um exame geral de rotina”, conclui David Lynden.

De acordo com os pesquisadores, os biomarcadores em vesículas extracelulares que são específicos para câncer também têm aplicações na pesquisa de novos medicamentos.

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biópsia líquida, câncer, vesículas extracelulares

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