Um inovador método de detecção de câncer e totalmente não invasivo foi apresentado no segundo semestre de 2017 pela equipe liderada pela química brasileira Livia Schiavinato Eberlin, na Universidade do Texas, em Austin, EUA. A MasSpec Pen, como foi batizada a tecnologia, entra agora em nova fase e será testada em cirurgias humanas a partir de setembro

Por Milena Tutumi

Inovação atua a partir da solubilidade das moléculas em água

Em desenvolvimento nos últimos três anos, a novidade tem como base a análise molecular das amostras por meio da espectrometria de massas. São muitos os méritos dessa inovação, de funcionamento aparentemente simples, mas que requer alta complexidade tecnológica para oferecer resultados precisos. A expectativa é de que o método permita ao cirurgião uma acuidade maior durante a remoção do tumor, preservando a integridade do tecido, além de oferecer máxima precisão em resultados analíticos. Mas o principal benefício para a equipe desenvolvedora é poder realizar a análise dentro do paciente, antes da extração do tecido.

“Essa tecnologia pode impactar positivamente em diversas outras condições, porque possibilitará ao cirurgião uma leitura molecular do estado daquele tecido, se é cancerígeno ou um outro tipo de cisto ou inflamação”, visualiza Eberlin, acrescentando que ainda possibilitará uma melhora na precisão das informações, além do ganho de tempo, tanto pelo lado do diagnóstico ao paciente como financeiro, uma vez que cada minuto utilizado dentro de um centro cirúrgico tem um custo muito elevado, e isso resultaria diretamente em benefícios aos sistemas de saúde.

Para entender o processo de detecção, os pesquisadores partiram do princípio da solubilidade em água de moléculas como metabólitos, proteínas e lipídeos, e do fato de o corpo humano ser constituído em sua maioria por água. “O processo utilizado extrai moléculas a partir de uma gota de 10µL de água em contato com o tecido. O design da MasSpec Pen permite que essa gota fique contida em um reservatório e interaja com o tecido por três segundos. Nessa interação, as moléculas saem do tecido, vão para a gota e são transportadas para um espectrômetro de massas por meio de um vácuo produzido pela caneta”, disse a pesquisadora ao portal LabNetwork. A partir da análise molecular feita no MS é possível desenvolver classificadores estatísticos para esses perfis de moléculas e rapidamente é produzido um diagnóstico.

Atualmente a detecção é feita pela patologia. Logo após a retirada do tecido na cirurgia, o patologista precisa detectar o tecido cancerígeno, muitas vezes encontrando dificuldades para diferenciá-lo de um tecido normal. “Muitos dados clínicos mostram que a expectativa de vida após a cirurgia está relacionada à exatidão da área de remoção do tecido cancerígeno. Nesse processo de retirada e análise, que pode durar cerca de 30 minutos, pode haver danos ao tecido, dificultando o diagnóstico correto, principalmente para determinar a região contaminada”, explica a pesquisadora. Além do fator não invasivo, o resultado da análise com a MasSpec Pen é gerado em 10 segundos.

“Equipamentos analíticos de alta precisão são cada vez mais utilizados na área clínica. A espectrometria de massas é a aliada da MasSpec Pen, uma caneta capaz de detectar células cancerígenas apenas pelo contato com o tecido analisado”.

Nessa primeira etapa da pesquisa, o periódico Science Translational Medicine publicou os estudos que mostraram o desenvolvimento da tecnologia e os testes realizados em células cancerígenas de mama, ovário, tireoide e pulmão. Todos até então tinham sido feitos em cirurgias animais e em tecidos humanos in vitro. Livia conta que agora as pesquisas já abrangem células tumorais de cérebro, pâncreas e identificação de tecidos normais: “A expectativa é que um dia a tecnologia detecte qualquer tipo de tumor, mas é preciso desenvolver um classificador estatístico para cada tipo. E desde que sejam tumores sólidos”, complementa.

As 15 pessoas da equipe de pesquisa liderada por Livia na Universidade do Texas continuarão no desenvolvimento da MasSpec Pen, trabalhando agora no aprimoramento do design, em melhorias do dispositivo para seu uso na clínica e, principalmente, com foco nos testes cirúrgicos em pacientes, pois a pesquisadora tem em mente que o desenvolvimento de dispositivos médicos é muito detalhado e que há ainda alguns anos de estudos para a MasSpec Pen se tornar uma tecnologia comercial.

Para conhecer o grupo de pesquisa de Livia Eberlin na Universidade do Texas, clique aqui.

Clique aqui para assistir ao vídeo explicativo do funcionamento da caneta.

A MasSpec Pen foi testada em diferentes tipos de câncer. Com base nas pesquisas publicadas, a inovação alcançou alta sensibilidade (96.4%), especificidade (96.2%) e exatidão global (96.4%) em 253 amostras únicas de tecido

Tags:

Caneta detectora de câncer, espectrometria de massas, Livia Schiavinato Eberlin, MasSpec Pen

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