Disseminação rápida da doença no país gerou alerta epidemiológico de autoridades paulistas, que alertam para necessidade de se conscientizar população e profissionais da saúde sobre características da doença

Vírus do mesmo gênero (Orthopoxvirus) daqueles da varíola humana, bovina e do vaccinia, usado na produção da vacina contra a varíola em seres humanos, o monkeypox tem como principal via de transmissão entre humanos o contato pele com pele. Foto: Depositphotos

A monkeypox (MPX), ou varíola símia, foi motivo de alerta epidemiológico emitido em 7 de julho pelo Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) do governo paulista em razão do número crescente de diagnósticos da doença no estado de São Paulo, que àquela altura registrava 75 dos 106 casos confirmados no país (70,8%). No informe nacional produzido em 21 de julho, o número de confirmações havia quintuplicado, com 607 casos, sendo 438 notificações em território paulista (72,2%).

O que mais preocupa as autoridades de saúde é um conjunto de características que, somadas, estão tornando a monkeypox uma doença de disseminação muito rápida em países não endêmicos, entre eles o Brasil. “A monkeypox é uma doença que, em resumo, é de extrema dificuldade de contingenciamento”, diz o infectologista Alexandre Naime Barbosa, professor da Faculdade de Medicina do câmpus de Botucatu (FMB-Unesp).

Vírus do mesmo gênero (Orthopoxvirus) daqueles da varíola humana, bovina e do vaccinia, usado na produção da vacina contra a varíola em seres humanos, o monkeypox tem como principal via de transmissão entre humanos o contato pele com pele. Os sintomas principais da doença são erupções cutâneas, febre e linfonodos (gânglios linfáticos) inflamados. As feridas na pele, que podem demorar até 21 dias para aparecerem após o contágio, podem aparecer no rosto, mãos, pés, peito e genitais, entre outras partes do corpo, têm elevada carga viral e por isso são altamente transmissíveis, exigindo que o portador do vírus respeite um prolongado isolamento, de até 40 dias – o indivíduo apresenta inicialmente uma vermelhidão na pele que evolui para uma pápula com uma pequena vesícula (bolha com líquido), que só deixa de transmitir o vírus depois de completamente cicatrizada.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a maioria dos casos notificados nos surtos constatados em países não endêmicos envolve principalmente, mas não exclusivamente, homens que fazem sexo com homens. Embora até o momento seja baixo o risco para a população em geral de desenvolver casos clínicos mais graves da doença, com indicação de internação, há um maior risco para crianças, gestantes, idosos e pessoas imunocomprometidas, indica o alerta do CVE.

Doença vem se espalhando por regiões não endêmicas

A varíola símia foi registrada pela primeira vez no ser humano nos anos 1970 na África ocidental e, ao longo das últimas décadas, tornou-se uma doença endêmica em alguns países daquela região, entre os quais Camarões e República Democrática do Congo. Em 2022, a monkeypox passou a chamar a atenção das autoridades de saúde e da comunidade científica após o surgimento e a propagação de casos em áreas não endêmicas, como Europa, Estados Unidos e o próprio Brasil.

Por ser transmitida em áreas não endêmicas, com registros de um percentual importante de casos assintomáticos e apresentação clínica atípica (diferente do que habitualmente se relatava na África, onde havia notificações de casos mais graves), é necessário que os profissionais de saúde estejam bem preparados para o surto atual e alertas para fazer a suspeição de um caso e o respectivo encaminhamento para testagem –fases de vigilância, investigação do caso, identificação do paciente e rastreamento de contatos.

Um exemplo da dificuldade no diagnóstico da monkeypox, segundo o professor da Unesp Alexandre Naime Barbosa, é um relato recente de um trabalho de testagem feito com participantes do festival de música eletrônica Tomorrowland, na Bélgica. Na entrada do festival, foram selecionados voluntários para coleta de material via swab para exame laboratorial. Os resultados indicaram que 13% tinham o vírus monkeypox, mas estavam assintomáticos, sem nenhuma lesão na pele.

“Vou citar o exemplo de um paciente que atendi por telemedicina no Brasil. Era um paciente HSH (Homem que faz Sexo com Homem) e me procurou porque estava com uma lesão no canto da boca, uma pústula. Qualquer médico poderia dizer que aquilo, uma pequena vesícula com conteúdo purulento, era uma acne, uma espinha. Mas tinha todo um contexto”, conta o infectologista, descrevendo um caso confirmado de monkeypox.

“Neste momento, é importante o alerta para a gente conseguir fazer o diagnóstico e tentar impedir a transmissão e, principalmente, evitar que a monkeypox chegue às populações mais vulneráveis, àquelas pessoas imunossuprimidas ou nos extremos de idade. A responsabilidade do cidadão é importantíssima para conseguir frear a transmissão da monkeypox”, diz Alexandre Naime Barbosa.

Desconhecimento da população e longo isolamento do paciente são desafios para o controle da doença

Somam-se ao desafio do diagnóstico outros dois pontos que aumentam a dificuldade para o controle da doença, segundo o docente: a falta de uma ampla campanha de conscientização e educação sobre a monkeypox, evitando tanto rotulá-la de maneira inadequada (apesar do nome, o atual surto não tem a participação de macacos na transmissão para seres humanos) quanto estigmatizar o portador do vírus (que não se restringe ao público gay ou bissexual), o que também depende do treinamento da rede de saúde; e o longo período de incubação (até 21 dias) e de isolamento (até 40 dias), o que inclui a indicação de uma severa restrição de atividades sociais, independentemente de o quadro sintomático ser leve.

“O isolamento depende basicamente da cicatrização das lesões. O tempo de isolamento é um problema porque imagine um indivíduo jovem, ativo, frequentador de festas, você vai segurar esse jovem durante quatro semanas em casa?”, pergunta Alexandre Naime Barbosa. “Neste momento, estamos vendo uma ponta bem pequenina do iceberg, uma migalha do que provavelmente temos em relação ao número de casos reais. Por isso que eu disse que é uma doença em que o contingenciamento é praticamente impossível”, diz.

De acordo com a atualização mais recente feita pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, feita em 21 de julho, há notificações da monkeypox em 72 países neste ano, nos cinco continentes, com um total de 15.848 casos confirmados, sendo 98,5% em países sem histórico anterior de surto da doença. As nações líderes em número de casos têm em comum sistemas de saúde bem articulados ou redes laboratoriais bastante consolidadas, o que facilita o diagnóstico: Espanha (3.125 casos), Estados Unidos (2.592), Alemanha (2.191), Reino Unido (2.137) e França (1.453).

Sem reporte de casos graves nas zonas não endêmicas até o momento, o tratamento para a monkeypox é basicamente sintomático – há dois antivirais no mercado que poderiam ser usados na eventualidade do surgimento de quadros clínicos de maior gravidade.

Em matéria de prevenção, as autoridades de saúde indicam o uso de máscara em público, a higiene frequente das mãos e dos ambientes para reduzir o risco de contágio, além da busca de um serviço de saúde se houver aparecimento de sintoma.

No caso de suspeita ou confirmação de algum caso próximo, como a transmissão ocorre também por contato com objetos e tecidos usados pelo portador do vírus, é recomendado não compartilhar roupas de cama, toalha, talheres, copos, entre outros objetos pessoais, bem como evitar beijos, abraços e relações sexuais até a cicatrização da lesão.

Ainda como estratégia de prevenção, já há vacina, a mesma utilizada para outras doenças causadas por vírus da mesma família Poxviridae, cujo gênero Orthopoxvirus é o mais relevante do ponto de vista de infecção em humanos. Não há produção nem registro desta vacina no Brasil ainda. “Mas vai precisar em algum momento”, alerta o docente da Unesp. Com informações da Unesp

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monkeypox (MPX)

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