Método é não invasivo e também se aplica ao monitoramento da doença

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de bexiga é um dos mais comuns do trato urinário, ocupa o nono lugar entre as neoplasias malignas mais incidentes no mundo e apresenta elevada taxa de recidiva

Um grupo de pesquisadores da Espanha desenvolveu um método não invasivo para obter um diagnóstico precoce de câncer de bexiga e também monitorar a doença. Além de ser de baixo custo, o resultado é fornecido imediatamente, o que não ocorre nas técnicas usadas atualmente.

Nesse método, a amostra de urina do paciente é analisada por uma “língua eletrônica”, dispositivo que possui eletrodos que geram pulsos de corrente elétrica e sensores que captam os sinais emitidos e os enviam a um computador — pode ser um notebook comum —, onde um software processa e analisa as alterações identificadas na amostra e as compara com padrões de pacientes saudáveis. Segundo os pesquisadores, estudos recentes mostram que, como a urina está em contato com o tumor da bexiga, a composição bioquímica da amostra pode ser modificada por moléculas liberadas pelas células tumorais.

O mesmo processo pode ser empregado para verificar se há recidiva do tumor. As informações obtidas com a amostra colhida antes do paciente se submeter ao tratamento ou cirurgia são comparadas com as de amostras posteriores, coletadas durante o acompanhamento médico.

“Os resultados preliminares desse estudo apresentaram uma taxa de acerto de 75%, mas indicam que  esse método pode fornecer um diagnóstico precoce e ser importante no acompanhamento da doença”, diz a bioquímica e PhD Maria Carmen Martínez Bisbal, coautora do trabalho.

O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidad Politécnica de Valencia (UPV), do Instituto de Investigación Sanitaria La Fe (IIS-LaFe) e do Centro de Investigación Biomédica en Red de Bioingeniería, Biomateriales y Nanomedicina (CIBER-BBN), e apresentado no 13º International  Workshop on Sensors and Molecular Recognition, realizado em julho, na UPV.

Abordagem metabolômica

Javier Monreal e Maria Carmen Martínez Bisbal

“A citoscopia e a citologia são os métodos mais usados atualmente para diagnóstico e acompanhamento do câncer de bexiga. No entanto, a citologia tem baixa sensibilidade na detecção de tumores de baixo grau, enquanto a citoscopia é invasiva, tem custo elevado e depende da habilidade de quem realiza o procedimento”, explica Javier Monreal, coautor do estudo e doutorando da Universidade Politécnica de Valência.

Ele acrescenta que existem vários testes baseados em citogenética ou proteínas para diagnóstico e acompanhamento do câncer de bexiga já aprovados pela Food and Drug Administration (FDA), dos EUA, mas nenhum deles apresenta resultados melhores que a citoscopia.

Segundo Monreal, o trabalho apresentado por ele e seus colegas é reforçado por pesquisas recentes publicadas nas revistas Cancers e Scientific Reports. Estas mostram que, através do uso de espectrometria de massa e ressonância magnética nuclear, descobriu-se que há diferenças no perfil metabolômico da urina de pacientes com câncer de bexiga antes e depois do tratamento ou cirurgia. “Portanto, nesse contexto, o uso da língua eletrônica pode se tornar um método simples e de baixo custo”, destaca o autor.

Aumento da incidência mundial

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de bexiga é um dos mais comuns do trato urinário, ocupa o nono lugar entre as neoplasias malignas mais incidentes no mundo e apresenta elevada taxa de recidiva.

No Brasil, para o biênio 2018-2019, as estimativas são de 6,69 mil novos casos em homens e de 2,79 mil em mulheres. Esse números  correspondem a um risco estimado de 6,43 casos novos a cada 100 mil homens, e de 2,63 a cada 100 mil mulheres. É o sétimo tipo de câncer mais comum no sexo masculino e o 14º no feminino.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), as taxas mundiais de incidência têm crescido nos últimos anos e são maiores na América do Norte, Europa, norte da África, Oriente Médio, Austrália e Nova Zelândia. Um dos motivos desse aumento seria o tabagismo. O World Cancer Report, publicação da OMS, estima que o risco de desenvolver câncer de bexiga entre fumantes é de duas a seis vezes maior do que em não fumantes. Outros fatores de risco estão relacionados à exposição ambiental para quem trabalha na produção de alumínio, borracha, tintas, tecidos, está em contato com agrotóxicos e se expõe à emissão de gases de motores a diesel.

Diversas aplicações

As línguas eletrônicas são usadas há alguns anos em diversos setores. Geralmente, são dispositivos de custo relativamente baixo e fornecem resultados precisos. Podem ser empregadas para analisar compostos específicos presentes em uma amostra ou a qualidade da própria amostra, através dos seus parâmetros físico-químicos.

O processo é análogo ao da língua humana. Nesta, as papilas gustativas detectam os sabores e enviam sinais para o cérebro, que os decodifica e identifica  se a substância é doce, salgada, amarga ou azeda, por exemplo.

Na língua eletrônica, ao invés de papilas há sensores e eletrodos por onde circulam correntes elétricas. Cada sensor tem um espectro de reação diferente do outro e se complementam no conjunto para fornecer uma informação final, sob a forma de sinais elétricos recebidos e decodificados por um programa de computador, que apresenta o resultado .

Na indústria farmacêutica, as línguas eletrônicas são empregadas para analisar  a estabilidade de medicamentos em termos de sabor. No setor de bebidas, verificam possíveis alterações de sabor provocadas pelo envelhecimento em sucos de frutas, leites aromatizados e bebidas alcoólicas, por exemplo. Também são importantes para monitorar parâmetros ambientais, qualidade da água, processos químicos e bioquímicos.

Tags:

"língua eletrônica", células tumorais, diagnóstico precoce de câncer de bexiga, urina

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