Patologia provoca distúrbio inflamatório crônico no trato gastrointestinal. O biomarcador descoberto no estudo é um anticorpo produzido por células secretoras de anticorpos no intestino

Utilizando método ELISA e análises bioquímicas, celulares e transcricionais, os pesquisadores descobriram um mecanismo que governava o equilíbrio imunológico prejudicado na mucosa da doença de Crohn após o diagnóstico

Uma equipe internacional, coordenada por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Toronto (Canadá), descobriu que um marcador no sangue pode prever a doença de Crohn grave em até sete anos antes de surgirem os sintomas.

Essa patologia causa um distúrbio inflamatório crônico, no qual o sistema imunológico do corpo tenta proteger o trato gastrointestinal, possivelmente visando antígenos microbianos. Embora não se tenha certeza do que a provoca, parece que ela ocorre por uma combinação de fatores ambientais, imunológicos e bacterianos em indivíduos geneticamente suscetíveis.

A doença de Crohn afeta cerca de 0,3% da população mundial. Os sintomas costumam ser dor no abdome, que pode ficar distendido, diarreia – nos casos graves, é encontrado sangue nas fezes -, perda de peso e febre.

O biomarcador descoberto no estudo é um anticorpo produzido por células secretoras de anticorpos no intestino. Estes impedem a comunicação entre as células imunes intestinais, ligando e bloqueando a função de uma citocina – proteína que sustenta o equilíbrio imunológico no intestino e promove a imunidade protetora e antimicrobiana.

“O marcador que nossa equipe identificou participa da patogênese da doença e ocorre até sete anos antes que ela mostre seu espectro clínico completo”, explica o médico Arthur Mortha, autor principal do estudo e professor assistente de imunologia na Faculdade de Medicina Temerty da Universidade de Toronto.

Segundo ele, os recursos terapêuticos atuais que causam alívio da remissão nos pacientes de Crohn são bons, mas têm limitações. “Um marcador ou indicadores preditivos para orientar as intervenções são uma necessidade clínica. Além disso, nossa caracterização desse marcador sugere que é um alvo terapêutico adequado para intervenção e, talvez, até prevenção”, acrescenta o médico.

Para a pesquisa foram usadas amostras do banco de sangue do Departamento de Defesa dos EUA, coletadas anualmente durante uma década, de 220 militares que desenvolveram Crohn. Elas foram comparadas com pacientes que apresentavam colite ulcerativa e com centenas de controles saudáveis.

Utilizando método ELISA e análises bioquímicas, celulares e transcricionais, descobriram um mecanismo que governava o equilíbrio imunológico prejudicado na mucosa da doença de Crohn após o diagnóstico.

Em um grande subconjunto de pacientes que apresentavam Crohn, a equipe verificou que os anticorpos neutralizaram os efeitos protetores da citocina e interromperam a homeostase intestinal. As alterações, detectadas no sangue dos pacientes anos antes do diagnóstico, levaram a um enfraquecimento do sistema imunológico que, com o tempo, resultou em danos à parte inferior do intestino delgado – conhecida como doença de Crohn ileal.

O biomarcador previu com bastante rigor essa condição, embora nem todos os pacientes com o anticorpo tenham mostrado exatamente a mesma forma e gravidade da doença. Para Mortha, isso destaca sua natureza multifatorial. O marcador estava presente em cerca de um quarto dos pacientes que desenvolveram Crohn.

Terapias personalizadas

Arthur Mortha, autor principal do estudo e professor assistente de imunologia na Faculdade de Medicina Temerty da Universidade de Toronto

De acordo com o pesquisador, a equipe também descobriu que poderia preservar os efeitos protetores da citocina, manipulando suas características bioquímicas. Versões da proteína com essas características aprimoradas podem torná-la praticamente invisível para os anticorpos.

“Nosso sistema permite ver como os anticorpos em cada paciente neutralizam especificamente a citocina. Agora, estamos projetando citocinas que conseguem escapar da neutralização feita por esses anticorpos em pacientes individuais”, destaca Mortha.

Segundo o médico, a abordagem utilizada na pesquisa pode permitir terapias personalizadas que revertam os efeitos paralisantes dos anticorpos e restauram o equilíbrio imunológico no intestino.

” É impressionante que nosso sistema imunológico de mucosa seja capaz de sustentar uma defesa contra o enorme número de micróbios no intestino e que não estejamos em completa agonia. A última década nos ensinou muito sobre os modos de comunicação usados por nossas células imunes intestinais para estabelecer um equilíbrio saudável nessa interface. Agora, é hora de mostrar o que aprendemos”, conclui Mortha.

O artigo Neutralizing anti-GM-CSF autoantibodies recognize posttranslational glycosylations on GM-CSF years prior to diagnosis and predict complicated Crohn’s Disease foi publicado na edição online de 25 de maio de 2022 da revista Gastroenterology.

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doença de Crohn, marcador no sangue

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