Tecnologia mais recente envolve córnea humana reconstruída; Rede Nacional de Métodos Alternativos (Renama) atua para internalizar no Brasil tecnologias e metodologias

Córnea humana reconstruída para teste de irritação ocular. Foto: divulgação Episkin

A incorporação de novas tecnologias ou metodologias que possam contribuir para banir a utilização de animais em testes de laboratório está no escopo de atuação da Rede Nacional de Métodos Alternativos (Renama). A Rede instituída pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) em 2011 reúne três laboratórios centrais e 40 laboratórios associados e atua para estimular a internalização no Brasil de métodos e tecnologias alternativos ao uso de animais.

Além de trabalhar para incentivar a disseminação do conhecimento e de práticas que substituem os métodos existentes para reduzir o impacto das pesquisas no uso de animais e fortalece a capacidade tecnológica na fronteira do conhecimento. A Rede permite a existência de uma infraestrutura laboratorial e de recursos humanos especializados capazes de implantar métodos alternativos ao uso de animais e de desenvolver e validar novos métodos no Brasil.

“A Renama veio com o objetivo de internalizar métodos já desenvolvidos e estabelecidos em outros países, ou seja, é uma rede de prestação de serviços para que também tenhamos essas tecnologias disponíveis no Brasil”, explica o coordenador-geral de Ciência da Saúde, Biotecnológicas e Agrárias do MCTI, Thiago Moraes. “O intuito é contribuir para a garantia da qualidade dos serviços ofertados ao setor produtivo, por meio da superação de barreiras técnicas, que permitam o aumento da competitividade internacional a produtos brasileiros”, complementa.

Por meio da rede, são disponibilizadas metodologias reconhecidas no âmbito da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e reconhecidas no Brasil pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), sempre observando os princípios de boas práticas de laboratório.

O CONCEA já reconheceu 24 métodos no Brasil. A Renama, por sua vez, trabalha para que os laboratórios tenham estes métodos reconhecidos internalizados, pois após o reconhecimento de um método, os laboratórios têm cinco anos para fazer a substituição e deixar de usar animais para aquela metodologia específica.

Por meio da Rede, são realizados cursos de capacitação no Brasil e no âmbito do Mercosul, por meio da Premasul. Os laboratórios associados, que possuem competência no assunto, têm a função de contribuir para a disseminação e desenvolvimento dos métodos alternativos e constituir a infraestrutura de ensaio de métodos alternativos do país.

Córnea humana reconstruída

A tecnologia mais recente internalizada no país foi o modelo de córnea humana reconstruída para teste de irritação ocular (SkinEthic HCE, OECD TG 492), lançada em maio deste ano. O método alternativo foi trazido ao Brasil pelo laboratório Epskin, que integra o Grupo L’Oréal, e é associado à Renama desde 2018. De acordo com a empresa Episkin, o modelo de córnea humana é reconstruído a partir de células epiteliais da córnea, que crescem em camadas e formam tecido não-queratinizado. Este método alternativo é validado (OEDC TG 492) para avaliar a irritação ocular, o que garante produtos mais seguros sem o uso de testes em animais.

O modelo representa um grande avanço na avaliação de segurança pré-clínica de qualquer ingrediente que possa entrar em contato com os olhos, pois é utilizado para avaliação de segurança e eficácia in vitro de diferentes produtos e ingredientes que podem causar irritação ocular, passa a ser fabricado localmente. Além do Brasil, a novidade atende à América Latina. O modelo atende às necessidades de diferentes indústrias como cosméticos, brinquedos, material escolar, produtos farmacêuticos, dispositivos médicos e agroquímicos.

“Ter se associado à Renama, em 2018, reforçou nosso entendimento sobre a necessidade de disponibilizar modelos validados para capacitação e implementação de métodos alternativos no Brasil”, afirma o CEO da Episkin no Brasil, Rodrigo De Vecchi.

Esse não é o primeiro modelo internalizado pela empresa. Em 2014, a L’Oreal foi pioneira e trouxe ao Brasil o primeiro modelo de epiderme humana reconstruída para testes de corrosão (SkinEthic RHE, OECD TG 431/439). Na opinião do diretor, o alinhamento de valores contribuiu para a internalização desse modelo internacionalmente validado. “Com isso, pudemos contribuir com a capacitação de mais de 200 pesquisadores que multiplicaram conhecimentos técnicos sobre métodos alternativos in vitro em vários laboratórios da Renama”, explica De Vecchi.

A empresa coordenou treinamentos práticos junto à Premasul, disseminando esse método alternativo para o Brasil e demais países do Mercosul. Com a internalização da córnea, a empresa também conduzirá treinamento para capacitação, disseminação e implementação desses métodos alternativos. O treinamento está previsto para o segundo semestre e deverá ser realizado em parceria com o Inmetro, que na Renama é responsável por coordenar as atividades de capacitação e treinamento (sistema de gestão da qualidade) e a implementação e divulgação de ensaios da OCDE e é responsável pela organização de comparações interlaboratoriais dentro da Rede.

“Ações como essas contribuem efetivamente para a implementação de métodos alternativos no país e na região, num momento de grande consciência da sociedade civil contra testes em animais”, conclui De Vecchi.

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animais em testes de laboratório, Rede Nacional de Métodos Alternativos (Renama)

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