Análise do sangue de 60 pessoas mostrou que anticorpos neutralizantes desenvolvidos tiveram eficácia contra a P.1 em 84% das amostras. Com a variante anterior, houve neutralização em 90% dos casos

Após ter o diagnóstico de Covid confirmado por teste de RT-PCR, os 60 voluntários foram monitorados durante sete semanas após a infecção inicial e submetidos a coletas semanais de sangue para análise do perfil sorológico

Anticorpos neutralizantes de pessoas infectadas em 2020 pela linhagem B.1.1.28 do coronavírus, a primeira a circular pelo Brasil, são capazes de eliminar também a variante P.1 do vírus na maioria dos casos, aponta pesquisa realizada pelo Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). A partir da análise do plasma sanguíneo de 60 pacientes contaminados pela B.1.1.28, testes realizados em laboratório mostraram que os anticorpos presentes em 84% dos pacientes neutralizaram a variante P.1.

A descoberta é descrita em preprint (versão prévia de artigo científico) publicado no site medRxiv em 17 de maio.

“Os experimentos foram feitos no Laboratório de Virologia (LIM-52) do IMT com soro de 60 voluntários infectados em 2020 pela linhagem B.1.1.28 do vírus SARS-CoV-2”, afirma a professora Maria Cássia Mendes-Correa, diretora do IMT, responsável pela pesquisa. “Após ter o diagnóstico de Covid confirmado por teste de RT-PCR, os 60 voluntários foram monitorados durante sete semanas após a infecção inicial e submetidos a coletas semanais de sangue para análise do perfil sorológico.”

“Cada amostra de plasma passava por um ensaio de neutralização (VNT), procedimento que envolve o cultivo do SARS-CoV-2 in vitro, e por esse motivo, requer estrutura laboratorial com alto nível de biossegurança”, descreve a professora. “Todos os pacientes apresentavam formas leves e moderadas de Covid. Nenhum deles foi hospitalizado e todos se recuperaram.”

Segundo ela, os anticorpos neutralizantes estão entre as principais – mas não únicas – ferramentas antivirais do organismo, sendo capazes de se ligar ao vírus e impedir a replicação viral no hospedeiro infectado. “Além dos anticorpos neutralizantes, outros mecanismos imunológicos, como a atividade antiviral mediada por linfócitos T, são fundamentais”, aponta. A somatória de diferentes mecanismos imunológicos em diferentes etapas da infecção é que determina, de forma geral, a evolução da doença, entre outros fatores. “A produção dos anticorpos neutralizantes ocorre gradativamente até alcançar uma quantidade suficiente para abortar a infecção.”

De acordo com a professora, os experimentos revelaram que o soro dos pacientes previamente infectados é capaz, na maioria dos casos, de reconhecer o agente infectante, responder a ele e neutralizar o vírus. “Esse tipo de comportamento sugere que indivíduos previamente infectados e doentes, em sua maioria, se reinfectados com a nova variante, poderão inativar a nova cepa viral”, afirma. “O tipo de resposta observada nos permite supor que caso ocorra uma nova infecção, essa nova infecção deverá ser, na maioria dos casos, menos severa ou mesmo assintomática.”

Evasão imune

Um estudo feito em Manaus com doadores de sangue, por exemplo, mostrou que até um terço dos casos de variante P.1 do coronavírus foram reinfecções – mas a maior parte das primeiras infecções consideradas na análise foi assintomática, diferentemente dos pacientes deste ensaio.

Outros trabalhos haviam sugerido que a variante P.1 do vírus induziria à evasão imune, ou seja, poderia facilitar a nova infecção de quem já havia contraído a doença com a variante anterior do vírus.

Mesmo este estudo mostra que há uma queda, ainda que relativamente pequena, do poder neutralizante dos anticorpos frente à P.1 em relação à capacidade de neutralizar a variante anterior.

Nos testes feitos com a linhagem B.1.1.28, os anticorpos presentes no plasma coletado de 56 voluntários (90%) conseguiram neutralizar o vírus em cultura. “Já no caso da P.1, amostras de 50 participantes (84%) foram bem-sucedidas no teste”, destaca Maria Cássia. “Nos dois casos, somente após o décimo quinto dia de infecção houve quantidade suficiente de anticorpos neutralizantes para combater o vírus, sendo que o desempenho frente à linhagem B.1.1.28 foi superior em todos os momentos avaliados.”

As conclusões do estudo coordenado por Maria Cássia Mendes-Correa são descritas no preprint Individuals who were mildly symptomatic following infection with SARS-CoV-2 B.1.1.28 have neutralizing antibodies to the P.1 variant, publicado no site medRxiv em 17 de maio.

Além do LIM-52, a iniciativa envolveu a Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e a Prefeitura desse município, localizado na Grande São Paulo. “A pesquisa foi conduzida no âmbito do Programa Corona São Caetano, uma plataforma on-line criada para organizar o monitoramento remoto de moradores com sintomas de covid-19”, destaca Maria Cássia.

Também participaram do estudo Lucy S. Villas-Boas Anderson de Paula, Tania Regina Tozetto-Mendonza, Wilton Freire, Steven S. Witkin e Heuder Gustavo Oliveira Paioao, do IMT/FMUSP, Ana Luiza Bierrenbach, do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês (São Paulo), e Andrea B. C. Ferraz e Fabio E. Leal, da Faculdade de Medicina da USCS (São Caetano do Sul). Com informações da USP

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anticorpos, coronavírus, variante

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