A infectologista consultora científica OPAS/Covid-19, Nancy Bellei, diz que a chegada da vacina pede um conhecimento do perfil sorológico dos pacientes

Por Milena Tutumi

A chegada das vacinas representa um importante momento para o cenário do diagnóstico de Covid-19. Os testes seguirão com a sua importância, principalmente para evitar o curso da doença, identificando casos e apoiando a tomada de medidas como isolamento e rastreamento de contactantes, além de oferecerem um direcionamento dos grupos vacinados.

Com mudanças ocorrendo quase diariamente na questão vacinal, especialmente em termos legais no Brasil, a certeza é que entre aquelas que estão em pedido de aprovação pelos órgãos reguladores, as formulações são diferentes, o que pode exigir um olhar atento sobre o papel das diferentes metodologias de testes.

vacinas que incluem o vírus inativado, enquanto outras só incluem a proteína Spike ou o RNA mensageiro, que determina a produção de anticorpos neutralizantes contra essa proteína específica do vírus, como explica ao Portal LabNetwork a médica infectologista Nancy Bellei, consultora ad-hoc do Ministério da Saúde – SVS para pandemia e consultora científica OPAS/Covid-19.

A proteína Spike é uma das quatro – Membrana (M), Envelope (E), Nucleocapsídeo (N) e Spike (S) – que compõem o SARS-CoV-2, sendo a responsável pela entrada do vírus nas células do corpo, ao se acoplar ao receptor ACE2. “O ideal é que se façam testes de detecção de anticorpos que possam avaliar a presença de anticorpos anti Spike principalmente dirigidos à porção S1, que contém a região antigênica que se liga aos nossos receptores”, explica a infectologista. Eventualmente, os testes que só detectam anticorpos antiproteína N, por exemplo, podem não ter eficácia para pacientes com diferentes tipos de esquemas de vacinação.

A Dra. Nancy explica que os testes de anticorpos são usados para avaliar pessoas que já tiveram a infecção no passado recente ou há mais tempo, e agora também para avaliar uma resposta vacinal, uma vez que os testes de detecção de anticorpo mostram as defesas do organismo ao apontar a presença de proteínas que protegem o indivíduo contra a infecção.

Baseados em outra metodologia, há os testes de antígeno, desenvolvidos para detectar a presença de proteínas virais em secreção respiratória ou saliva do paciente e que servem para demonstrar se o indivíduo está com a infecção ativa e, portanto, se é contagioso.

Ao detectar a infecção em sua fase aguda, o teste de antígeno pode ser equiparado ao teste de amplificação de ácido nucleico, RT-PCR, pois ambos devem ser aplicados nos primeiros dias após o aparecimento dos sintomas. Para a Dra. Nancy, o diagnóstico pela detecção de antígeno pode ser mais prático em relação ao PCR pela rapidez na entrega dos resultados. De acordo com o Center for Disease Control and Prevention americano (CDC), o tempo de resposta do teste de antígeno é de 15 minutos1. “Por outro lado, há estudos que mostram que a detecção do antígeno se correlaciona com transmissibilidade, o que facilita o screening de pacientes em determinadas situações de possível transmissão. O antígeno tem menor sensibilidade que o PCR e, nesses casos, um antígeno negativo em um paciente altamente suspeito terá que ser confirmado com um teste de PCR”, comenta a médica.

Dr. Rafael Jácomo

Com base nos dados divulgados de que ainda não há vacina com 100% de eficácia comprovada, o Diretor Técnico do Laboratório Sabin de Análises Clínicas, Dr. Rafael Jácomo, pontua que será preciso o sistema de saúde estar preparado para identificar sintomas mesmo nas pessoas vacinadas para que sejam diagnosticadas precocemente, reforçando a importância dos testes diagnósticos como ferramenta para combate à Covid-19.

Para o futuro próximo, o Dr. Jácomo acredita que a vacinação impactará na diminuição dos casos e, consequentemente, na melhora dos prazos para entrega de resultados, especificamente do teste de PCR, que para ele continuará a ser o método padrão ouro. “Ainda será necessário entendermos a aplicabilidade da sorologia neste novo contexto. Se será comprovadora de virada sorológica pós-vacinal, como vemos na Hepatite B, por exemplo, ou se a vacinação per se será definidora de imunidade”, visualiza.

Para a Dr. Nancy Bellei, o momento da vacinação pede um conhecimento do perfil sorológico dos pacientes, principalmente porque levará um longo tempo para que uma parcela expressiva da população seja vacinada: “Saber se já houve ou não a infecção é interessante para se ter alguma ideia sobre as chances de infecção ou não”.

Referência:

https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/lab/resources/antigen-tests-guidelines.html

Tags:

diagnóstico de Covid-19, Nancy Bellei, Rafael Jácomo, vacinas

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