Estudo inédito no Inca compara alterações epigenéticas de pacientes com câncer de esôfago de diferentes países. A pesquisa, que conta com apoio da Faperj, abre a possibilidade de desenvolvimento de novas terapias e avanços nos métodos de detecção precoce da doença

A pesquisa analisou mais de 850 mil alterações epigenéticas em câncer de esôfago

Pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer (Inca) participam do primeiro estudo multicêntrico sobre alterações epigenéticas de pacientes com câncer de esôfago de diferentes países com baixo/médio Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). De acordo com os pesquisadores, a pesquisa abre a possibilidade de desenvolvimento de novas terapias e avanços nos métodos de detecção precoce da doença.

Participam do estudo, pelo Inca, os pesquisadores Luis Felipe Ribeiro, chefe do Programa de Carcinogênese Molecular e coordenador de Pesquisa do Instituto, e Sheila Coelho Soares. Ambos contam com apoio da Faperj para a realização de seus estudos. Ribeiro foi contemplado nos programas de fomento à pesquisa da Fundação intitulados Cientista do Nosso Estado e Programa de Apoio a Projetos Temáticos no Estado do Rio de Janeiro. Sheila, por sua vez, recebe apoio por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado.

O estudo resultou no artigo Genome-Wide DNA Methylation Profiling of Esophageal Squamous Cell Carcinoma from Global High-Incidence Regions Identifies Crucial Genes and Potential Cancer Markers (Caracterização do Perfil de Metilação do DNA Genômico de Carcinoma Epidermodie de Esôfago de Regiões de Alta Incidência Identifica Genes Cruciais e Potenciais Biomarcadores), publicado na revista Cancer Research, da American Association for Cancer Research Publications. Ao longo de cinco anos, foram analisados 240 pacientes de diferentes países, sendo 28% do Inca. O Instituto representa o Brasil nesse trabalho e integra um grupo com membros de diferentes países, coordenado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês).

Epigenética é a área da biologia que estuda as alterações do DNA que não modificam a sua sequência, mas afetam a atividade de um ou mais genes. Essas alterações podem gerar efeitos negativos ou positivos para o organismo. No caso do câncer, a epigenética é importante porque ajuda a entender como o comportamento da célula tumoral é diferente do comportamento da célula normal. A partir do estudo, foi possível identificar que as alterações epigenéticas estão entre as mais relevantes para o desenvolvimento do câncer de esôfago, já que o mesmo padrão é observado em pacientes de diferentes países.

Sheila destaca que uma das contribuições mais significativas dessa pesquisa é que, a partir da identificação desses marcadores, podem ser praticados métodos menos invasivos para o diagnóstico do câncer de esôfago. “Um exemplo é a biópsia líquida, que é pouco invasiva e com boa relação custo-efetividade, esse método permite investigar os marcadores da doença a partir do sangue do paciente”, explica a bióloga.

De acordo com Ribeiro, já é possível a utilização de medicamentos capazes de reverter alterações epigenéticas dos pacientes. “Alguns remédios até mesmo já são utilizados no tratamento de outros tipos de câncer. Assim, poderemos avaliar o potencial de incorporação dessas drogas no tratamento de pacientes com câncer de esôfago”.

Segundo os pesquisadores, as alterações epigenéticas costumam ser frequentes nos pacientes oncológicos e determinam como o código genético é lido. Essa avaliação, relatam, ainda não tinha sido feita de forma tão profunda em câncer de esôfago e nem mesmo em algumas das populações mais afetadas pela doença no mundo. Por isso, o estudo traz observações que permitem entender como esses tumores se formam e quais são as mudanças epigenéticas que participam do desenvolvimento e da evolução da doença. Dessa forma, será possível revelar os sinais do câncer de esôfago em estágio inicial, possibilitando um tratamento mais precoce, dando maiores chances de controle da doença para esses pacientes.

Outro diferencial do estudo é examinar populações pouco estudadas e em que o câncer de esôfago é mais prevalente, como a da Ásia, incluindo a Índia e a China, o Leste da África e a América do Sul, com os dados do Brasil. A pesquisa analisou mais de 850 mil alterações epigenéticas em câncer de esôfago.

Os pesquisadores ressaltam que a maior dificuldade para o tratamento do paciente com a doença é o seu diagnóstico tardio. “O mais comum é que os pacientes somente procurem ajuda médica quando não conseguem mais engolir líquido ou alimentos, já estando num estágio muito avançado para que o tratamento seja eficaz. Esse estudo traz a possibilidade de um avanço da saúde para esses pacientes”, diz Sheila.

De acordo com dados disponíveis no site do Inca, o número de casos novos de câncer de esôfago estimados para o Brasil, para cada ano do triênio 2020-2022, será de 8.690 casos em homens e de 2.700 em mulheres. Esse tipo de câncer afeta principalmente populações mais pobres, como as do Leste da África, Ásia e América do Sul, devido a fatores ambientais e alimentares. A detecção tardia e a falta de opções de tratamento são os principais motivos da alta taxa de letalidade. Ribeiro destaca que esse tipo de câncer atinge, na maioria dos casos, populações de baixa e média rendas. “Essa é uma doença negligenciada. Por isso, esse estudo tem papel fundamental porque vai ajudar populações que necessitam de atenção”, completa.

No Brasil, segundo dados reunidos pelo Inca, o câncer de esôfago, entre os homens, é o sexto mais incidente e o quinto de maior mortalidade – sem considerar os tumores de pele não-melanoma. Os principais fatores de risco associados ao desenvolvimento da doença são o uso de álcool e tabaco. Com informações da Faperj

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