Premiado pela American Society for Microbiology, Gustavo Henrique Goldman afirma que País precisa investir em microbiologia para crescer e vencer pandemias

Em seu laboratório na FCFRP, Goldman e sua equipe se concentram em amostras clínicas dos fungos filamentosos Aspergillus fumigatus e Aspergillus spp

Na mesma época em que um ser microscópico sacode o planeta, uma das mais prestigiadas sociedades científicas do mundo reconhece um profissional brasileiro como líder no avanço da pesquisa, da educação e da tecnologia em sua área, a microbiologia. O brasileiro é o professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, Gustavo Henrique Goldman, e a sociedade científica, a American Society for Microbiology (ASM), que contemplou Goldman com o 2021 ASM Moselio Schaechter Award in Recognition of a Developing-Country Microbiologist, prêmio concedido pelas contribuições notáveis às ciências microbianas de países em desenvolvimento.

A ocorrência comum dos dois eventos (a pandemia da Covid-19 e o prêmio) pode até ser coincidência, mas o destaque da microbiologia nacional, não. Apesar desta ser a primeira vez que o prêmio vai para um brasileiro, o próprio professor Goldman reconhece a excelente qualidade da microbiologia brasileira, afirmando que a pesquisa feita em seu laboratório “é do mesmo nível de centenas de outros laboratórios de microbiologia no Brasil”.

Goldman se diz honrado com a homenagem pelos seus esforços profissionais, mas garante que se trata de reconhecimento de trabalhos do Estado brasileiro e, principalmente, do Estado de São Paulo que, nos últimos 50 anos, apoiou e criou uma microbiologia de nível internacional. O professor lembra que construiu toda sua carreira – pós-treinamento profissional – no Brasil, com financiamento da Fapesp e do CNPq, sediado na Universidade de São Paulo, que lhe ofereceu excelentes condições de trabalho.

Em seu laboratório na FCFRP, Goldman e sua equipe se concentram em amostras clínicas dos fungos filamentosos Aspergillus fumigatus e Aspergillus spp. São fungos que provocam um conjunto de doenças – aspergilose, que tem a forma aspergilosa pulmonar invasiva como a mais letal. Buscam por informações genéticas que expliquem a virulência desses fungos e os mecanismos de tolerância e resistência a drogas antifúngicas.

Os fungos filamentosos, conta o professor Goldman, “são importantes tanto do ponto de vista biotecnológico como da saúde humana, vegetal e animal”. Enzimas, antibióticos e ácidos orgânicos estão entre os diversos produtos essenciais para a sociedade que são produzidos por fungos filamentosos. Exemplificando, Goldman diz que os fungos são responsáveis por 30% da perda de alimentos vegetais (pré e pós-colheita) e matam mais seres humanos que a tuberculose e a malária juntas. Apesar da importância social, “os fungos são organismos hipernegligenciados em termos de financiamento e atenção pelas agências reguladoras”, lamenta o pesquisador.

Novas epidemias justificam formação de microbiologistas

Crítico de si mesmo, apesar de feliz com a homenagem, Goldman admite sentir-se um pouco pressionado a melhorar o conteúdo e a didática de suas aulas na graduação e na pós-graduação, além de publicar seus artigos “com conteúdos mais significativos e em revistas de maior fator de impacto”. E estende a crítica à USP, “uma excelente universidade” que poderia “ser melhor se houvesse uma avaliação mais consequente dos quadros docentes”, e também ao Estado brasileiro, que destrói os esforços da ciência nacional através de “administração inepta e incompetente”.

Às críticas à USP, o professor soma ainda o fato do campus de Ribeirão Preto não possuir um curso de pós-graduação em Microbiologia Molecular. É que esta é a aspiração de Goldman para ampliar a pesquisa, tecnologia e formação na sua área. Conta que vem articulando a respeito dessa ideia mas, infelizmente, “ninguém demonstrou interesse”.

A argumentação para o curso, segundo o professor, é a existência do seu laboratório e de diversos outros laboratórios em Ribeirão Preto que “introduziram uma pesquisa moderna e avançada sobre a biologia da patogênese humana por vírus, bactérias e fungos filamentosos”. Para Goldman, esse é um cenário “inspirador para a formação de novos microbiologistas”.

E mais profissionais da microbiologia é o que “nós necessitamos”, garante o professor, alertando que “outras epidemias e pandemias virão e, certamente, não serão só virais”. Para Goldman, o País precisa de microbiologistas treinados em virologia, bacteriologia e micologia, pois são “fundamentais para a nossa segurança alimentar, a segurança da vida animal silvestre, assim como da saúde humana”.

A cerimônia oficial para a entrega do prêmio ao microbiologista brasileiro será em Anaheim, Califórnia, Estados Unidos, durante o 2021 ASM Microbe Meeting, de 3 a 7 de junho de 2021. Com informações da USP

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American Society for Microbiology, Gustavo Henrique Goldman, microbiologia

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