“Com base nos estudos com os venenos obtidos dessas novas espécies, poderemos compreender melhor o papel das toxinas presentes nos venenos das serpentes desse gênero e até mesmo descobrir novas moléculas com potencial biotecnológico”

Em março, a Revista Fapesp publicou estudos que apresentaram como resultado a descrição de duas novas espécies de jararaca. O trabalho foi conduzido por um grupo de pesquisadores e liderado pelos biólogos Fausto Barbo e Felipe Grazziotin, do Instituto Butantan. Pesquisadoras da Fundação Ezequiel Dias (Funed) comentam como a descrição de novas espécies pode impactar o desenvolvimento de pesquisas biotecnológicas com venenos de serpentes.

Uma das espécies descoberta recebeu o nome científico Bothrops jabrensis e só é encontrada em uma área muito pequena no interior da Paraíba. A outra, chamada Bothrops germanoi, existe apenas em uma ilha, também muito pequena, conhecida como ilha da Moela, no litoral de São Paulo.

A bióloga e chefe do Serviço de Coleção Científica e Popularização da Ciência da Funed, Giselle Agostini Cotta, explica que a descrição de uma espécie tem como objetivo apresentar um novo organismo, explicando como ele difere das apresentadas anteriormente. “Atualmente, as descrições de espécies envolvem análises morfológicas, além das modernas técnicas moleculares. Nas serpentes, são comumente avaliados o padrão e a contagem das escamas, a coloração do animal, características do órgão copulador e a estrutura craniana. A descrição formal da espécie recém-descoberta ocorre por meio de um artigo científico e, nele, são apresentadas fotografias, ilustrações, além das características que definem o nome do organismo”, detalha.

Para a pesquisadora Luciana Souza de Oliveira, que atua no Serviço de Bioquímica de Proteínas de Venenos Animais (SBVA) da Funed, a descrição dessas duas novas espécies de jararaca é importante para o avanço da ciência como um todo, pois gera conhecimento a partir do fato. “Com base nos estudos com os venenos obtidos dessas novas espécies, poderemos compreender melhor o papel das toxinas presentes nos venenos das serpentes desse gênero e até mesmo descobrir novas moléculas com potencial biotecnológico”, afirma.

A equipe do SBVA trabalha com venenos de serpentes Bothrops brasileiras e peruanas, com foco em elucidar as propriedades moleculares e farmacológicas das proteínas presentes nesses venenos. “No laboratório, avaliamos a ação de proteínas enzimáticas e não enzimáticas isoladas dos venenos das serpentes na função plaquetária e ativação de macrófagos (células de defesa do sistema imune). Além disso, verificamos o potencial biotecnológico dessas moléculas como agentes antitrombóticos e antimetastáticos”, explica Luciana.

A pesquisadora Márcia Helena Borges, do Serviço de Proteômica e Aracnídeos da Fundação, lembra que, há mais de um século, a Funed tem como um de seus objetivos desenvolver estudos com venenos animais. “Esses estudos incluem a busca de moléculas bioativas presentes nessas misturas, que apresentam potencial biotecnológico e também trabalhos envolvendo a produção de antivenenos. Por isso, essa descoberta é de amplo interesse para nossa instituição, que poderá realizar estudos de relação filogenética e ampliar seu conhecimento envolvendo os venenos de serpentes”, acredita.

No SPAR, são desenvolvidas pesquisas com venenos de serpentes e aracnídeos. Especificamente sobre os venenos de serpentes, existem projetos que visam à caracterização do soro produzido na Funed, bem como do veneno utilizado para a imunização dos cavalos. Em ambos os estudos, o objetivo principal é contribuir para que seja garantida a qualidade do antiveneno produzido pela Fundação. “A caracterização dos venenos das novas espécies descritas trará, em nível molecular, mais conhecimento com relação à estrutura e, principalmente, à função dessas moléculas, que ficaram isoladas e sofreram pressões diferentes de outras espécies. Comparações em nível molecular e funcional entre essas espécies e as já descritas trarão conhecimentos que poderão direcionar nossos estudos futuros para o desenvolvimento de produtos de interesse biotecnológico e também para o desenvolvimento de novas estratégias antivenenos”, afirma Márcia.

Preservação da biodiversidade

De acordo com os biólogos que descreverem as novas serpentes, elas já podem ser consideradas espécies em extinção. Giselle Cotta lembra que, o fato das duas espécies recém-descritas serem de regiões restritas e sujeitas ao impacto da ação humana já é um indicativo do risco de desaparecerem. Isso sinaliza a necessidade de medidas de preservação dos ambientes em que ocorrem para a manutenção de ambas as espécies.

Flávia Cappuccio de Resende, pesquisadora do Serviço de Coleção Científica e Popularização da Ciência, explica que na Coleção Científica de Serpentes da Funed está sendo desenvolvido um estudo sobre a biologia reprodutiva de duas espécies de jararacas (Bothrops neuwiedi e Bothrops jararaca). “Nosso objetivo é compreender o ciclo reprodutivo dos machos por meio de análises morfológicas dos órgãos do sistema genital. Estamos investigando a época de atividade dos testículos, o período que os animais estão prontos para a cópula e a estocagem de espermatozoides nos machos, por exemplo. Esse tipo de estudo gera conhecimento básico que pode ser subsídio para reprodução desses animais em cativeiro”, conta Flávia.

Atualmente, a Coleção Científica de Serpentes da Funed tem 871 exemplares do gênero Bothrops, das seguintes espécies: Bothrops jararaca, B. alternatus, B. neuwiedi, B. moojeni, B. pauloensis, B. marmoratus, B. lutzi, B. bilineatus, B. itapetiningae, B. atrox, B. leucurus, B. erythromelas, B. taeniatus, B. jararacussu. Giselle explica que espécimes preservados em coleção são importantíssimos para a realização de estudos taxonômicos. “As coleções biológicas abrigam espécimes coletados em diferentes regiões ao longo do tempo. Em toda descrição de espécie, há a comparação com exemplares tombados em coleções científicas. Pode-se, inclusive, descrever uma nova espécie a partir de espécimes já preservados em coleção. A Coleção Científica de Serpentes da Funed possui mais de 4.300 animais tombados e está acessível a pesquisadores de todo o Brasil”, acrescenta Giselle.

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Fundação Ezequiel Dias (Funed), jararaca, pesquisas biotecnológicas com venenos de serpentes, técnicas moleculares

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