Criado em colaboração com a Unicamp e a USP, o consórcio terá por objetivo identificar candidatos pré-clínicos com chances de se tornarem novos compostos para o tratamento da leishmaniose visceral, doença de Chagas e malária

Em busca de novos medicamentos para doenças negligenciadas e para a malária, pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e USP (Universidade de São Paulo) vão reunir um time de cientistas em uma rede global de colaboração cofinanciada por Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), DNDi (iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas) e MMV (Medicines for Malaria Venture).

O consórcio internacional, apoiado no âmbito do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) da Fapesp, receberá investimentos de R$ 43,5 milhões em cinco anos. Os investimentos serão feitos pela Fundação (R$ 7,8 milhões), DNDi e MMV (R$ 12,8 milhões) e Unicamp e USP (R$ 22,9 milhões, em infraestrutura de pesquisa e custos de pessoal).

Criado em colaboração com a Unicamp e a USP, o consórcio terá por objetivo identificar candidatos pré-clínicos com chances de se tornarem novos compostos para o tratamento da leishmaniose visceral, doença de Chagas e malária.

O objetivo do projeto com a MMV é identificar uma nova molécula para o tratamento da malária que possa matar rapidamente o parasita sem deixá-lo suscetível ao desenvolvimento de resistência ao medicamento. Idealmente, esta nova molécula deve ter o potencial de ser desenvolvido, em combinação, com a meta de criar cura radical em dose única e profilaxia e/ou um medicamento com quimioproteção em dose única, o que ajudaria a eliminar a malária em países como o Brasil e, eventualmente, em todo o mundo.

Já com a DNDi o objetivo é entregar um composto de alta qualidade, otimizado e pronto para desenvolvimento clínico, para o tratamento da doença de Chagas e leishmanioses. Busca-se, assim, seguir os perfis de produtos-alvo desenvolvidos pela DNDi e seus parceiros para garantir a entrega de um composto que satisfaça as necessidades dos pacientes.

“A colaboração da Unicamp e USP com MMV e DNDi, ao mesmo tempo em que traz para São Paulo o desafio de pesquisa de descoberta de moléculas que sejam boas candidatas clínicas no combate a doenças negligenciadas e à malária, também abre o acesso ao acervo das organizações parceiras e a sua experiência na análise de tais moléculas. Dessa forma, une pesquisa na fronteira do conhecimento e conectada a aplicações de enorme relevância social com formação de pesquisadores, importantes objetivos para o estado de São Paulo”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, sobre a parceria.

As doenças negligenciadas e a malária afetam bilhões de pessoas ao redor do mundo, principalmente em áreas de extrema vulnerabilidade. Os poucos medicamentos que existem para tratá-las são caros, têm pouca eficácia ou têm efeitos colaterais indesejáveis. A ideia do projeto é, portanto, estimular o desenvolvimento de capacidades para a pesquisa de novos fármacos no Brasil por meio do intercâmbio das melhores práticas de conhecimento.

“A MMV está comprometida em descobrir os medicamentos que permitirão aos países endêmicos da malária, como o Brasil, eliminar a doença de dentro de suas fronteiras e apoiar a erradicação global”, disse o Dr. Timothy Wells, diretor científico da MMV. “Estamos muito satisfeitos em poder contar com os conhecimentos especializados de cientistas brasileiros da Unicamp e da USP e combiná-los com a experiência da MMV em malária para desenvolver medicamentos antimaláricos para a população do Brasil e de outros países.”

“O grande diferencial deste consórcio é a criação de uma rede internacional, multidisciplinar, autossustentável e pensada a partir das necessidades das populações dos países endêmicos. Trata-se de um esforço conjunto pelo mesmo propósito: obter tratamentos seguros e eficazes para a doença de Chagas, leishmanioses e malária”, explica Jadel Müller Kratz, gerente de Pesquisa & Desenvolvimento da DNDi.

A parceria também apoiará o treinamento de gerações futuras de especialistas em tratamento de doenças negligenciadas na Unicamp e na USP, ao mesmo tempo em que trará novas oportunidades de trabalho e investimentos em infraestrutura nestas instituições.

Luiz Carlos Dias, professor do Instituto de Química da Unicamp, é responsável pela coordenação geral do projeto.

“O consórcio vai ultrapassar fronteiras internacionais e levar à consolidação de um modelo de parceria global que contribui com a inovação, o avanço do conhecimento na área de descoberta de novos medicamentos para doenças parasitárias tropicais, a aceleração dos cronogramas de pesquisa e o compartilhamento de dados”, disse Dias.

As doenças

A malária, uma das doenças contempladas pelo consórcio, é causada por parasitas da família Plasmodium e é transmitida pela picada de mosquito infectado. Em 2018, cerca de 200 mil casos de malária foram notificados no Brasil, segundo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde. Em 2017, o número de pessoas afetadas registrou aumento de 53% em relação ao ano anterior.

Endêmica em 21 países da América Latina, a doença de Chagas é a enfermidade parasitária que mais mata na região, segundo dados da DNDi. No total, 70 milhões de pessoas estão em risco em todo o mundo e cada vez mais cresce o número de pacientes em países não-endêmicos, como Estados Unidos e Austrália.

Causada pelo protozoário Leishmania spp. e transmitida pelas inúmeras espécies do mosquito-palha, a leishmaniose visceral é uma zoonose de evolução crônica que pode ser letal, caso não seja devidamente tratada. Dos casos registrados na América Latina, cerca de 90% ocorrem no Brasil. Com informações da Unicamp

Tags:

malária, medicamentos para doenças negligenciadas

Compartilhe: