Técnica também permite monitorar progressão do tumor e resposta à terapia

Nesse novo estudo, a equipe aperfeiçoou o método anterior, de modo que ele conseguisse detectar o mRNA produzido a partir de um gene EGFR mutante chamado EGFRvIII. Essas mutações são encontradas com frequência em gliomas muito agressivos

Pesquisadores do Massachussets General Hospital (MGH), em Boston (EUA), desenvolveram um teste de sangue que detecta pedaços do RNA mensageiro (mRNA) que circulam na corrente sanguínea e permite identificar mutações no gene que codifica o receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR). Essas mutações estão relacionadas a gliomas, termo geral para um grupo de tumores, como o glioblastoma, que envolvem as células gliais, presentes no Sistema Nervoso Central (SNC).

Gliomas correspondem a cerca de 30% de todos os tumores no cérebro e, na maioria dos casos, têm crescimento rápido.

Em 2020, o mesmo grupo do MGH desenvolveu um teste de sangue à base de PCR digital em gotas (ddPCR) que identifica duas mutações no gene TERT que ocorrem em gliomas. Os resultados foram publicados em janeiro do ano seguinte, em Clinical Cancer Research, no artigo TERT promoter mutation analysis for blood-based diagnosis and monitoring of gliomas.

Nesse novo estudo, a equipe aperfeiçoou o método anterior, de modo que ele conseguisse detectar o mRNA produzido a partir de um gene EGFR mutante chamado EGFRvIII. Essas mutações são encontradas com frequência em gliomas muito agressivos.

No estudo, foi determinada a prevalência de mRNA do EGFRvIII em tecido tumoral de glioma de 37 amostras. O teste de sangue desenvolvido pela equipe foi aplicado na análise de amostras de plasma de 30 pacientes com glioma em que havia confirmação de tecido EGFRvIII, em dez pacientes com gliomas sem mutações EGFR e em 14 controles saudáveis.

Segundo os pesquisadores, o teste mostrou sensibilidade geral (capacidade de detectar a presença de EGFRvIII) de 72,8% e especificidade (capacidade de identificar a ausência de EGFRvIII) de 97,7%.

Técnica menos invasiva

“Existe uma necessidade de tornar o diagnóstico de tumor cerebral menos invasivo do que pela técnica de biópsia de tecidos. Nossa pesquisa demonstra que agora é viável diagnosticar um tumor cerebral por meio de um exame de sangue para uma das mutações mais comuns detectadas em tumores cerebrais”, diz a coautora Leonora Balaj, pesquisadora do Brain Tumor Research Center do MGH e professora assistente de neurocirurgia da Harvard Medical School.

Para ela, permanece a urgência de desenvolvimento e implementação clínica de modalidades alternativas sensíveis e não invasivas para facilitar a amostragem em série e o monitoramento em tempo real das alterações genéticas e epigenéticas em evolução.

“Nesse sentido, a biópsia líquida, definida como amostragem e análise de fluidos biológicos não sólidos, como LCR e plasma, oferece novas oportunidades para a caracterização molecular do glioma e detecção de biomarcadores prognósticos”, acrescenta Balaj.

Os pesquisadores explicam que a técnica pode ser usada para determinar quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar de medicamentos direcionados à proteína EGFRvIII em células cancerígenas.

Os estudos atuais envolvendo células imunes CAR-T visam atingir esse marcador de superfície. Um teste baseado em sangue para EGFRvIII permitira estratificar pacientes que seriam elegíveis para potenciais ensaios clínicos, bem como monitorar a resposta à terapêutica usando um simples exame de sangue”, afirma outro coautor, Bob Carter, presidente do Departamento de Neurocirurgia do MGH e professor da Harvard Medical School.

A equipe reconhece que o teste vai exigir estudos adicionais para avaliar o desempenho em grupos maiores de pacientes. No entanto, segundo eles, a combinação de diferentes ensaios de mutação representa uma estratégia promissora para obter diagnóstico mais preciso de gliomas, monitorar a progressão do tumor e avaliar a resposta à terapia.

“A técnica que desenvolvemos também pode ser aplicada a uma série de outros tipos de câncer que carregam mutações nesse e em outros genes”, conclui Carter.

O artigo Highly sensitive EGFRvIII detection in circulating extracellular vesicle RNA of glioma patients foi publicado online em 18 de julho de 2022 em Clinical Cancer Research.

Tags:

gliomas, RNA mensageiro, teste de sangue

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