Termo firmado pelo Lassbio prevê acesso da Eurofarma ao acervo de 2 mil moléculas com potencial para o desenvolvimento de fármacos e o trabalho conjunto para o lançamento de medicamentos no mercado. A parceria também tem como objetivo desenvolver o primeiro fármaco que “fale português”.

A iniciativa permitirá um retorno do que é feito na universidade mais visível e palpável à sociedade

O Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lassbio/ICB/UFRJ) assinou nesta quarta-feira, dia 22 de maio, um acordo com a empresa farmacêutica Eurofarma para o desenvolvimento conjunto de fármacos e intercâmbio de recursos humanos. O termo de cooperação também prevê o acesso ao acervo de duas mil moléculas identificadas por conter propriedades com potencial para medicamentos e que fazem parte da “quimioteca” do laboratório.

Para o diretor do Lassbio, Eliezer Barreiro, a iniciativa permitirá um retorno do que é feito na universidade mais visível e palpável à sociedade. “Em um processo de inovação radical em fármacos, a parceria com o setor produtivo é essencial. É ela que viabiliza a chegada daquela molécula, daquela substância descoberta na universidade na prateleira da farmácia”, disse. Barreiro também coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Fármacos e Medicamentos (INCT-Inofar), que conta com apoio da FAPERJ.

A parceria do INCT-Inofar com as indústrias farmacêuticas, de acordo com o pesquisador, está em uma relação madura há pelo menos uma década. E não foram poucos os percalços nesse período. Em 2005, Barreiro se animava com uma molécula promissora para o desenvolvimento de um “Viagra brasileiro”. No entanto, os testes em animais demonstraram que a substância promovia desconforto na consolidação óssea dos coelhos. “Nós colecionamos muitos fracassos. E, em pesquisa, são esses fracassos que nos aproximam do sucesso. Então, seguimos até desenvolver um fármaco que fale português”, comenta.

Atualmente, o laboratório atua em outras frentes e trabalha também com fitoterápicos, antibacterianos, substâncias que podem controlar a dor neuropática – uma dor ainda sem tratamento –, quimioterápicos contra doenças negligenciadas, especialmente leishmaniose. Também atua no tratamento da depressão e doenças do sistema nervoso central em geral.  “Essas doenças fazem parte do portfólio de interesse da empresa. Considero que exatamente por haver essa afinidade com o trabalho que o INCT-Inofar desenvolve é que houve essa aproximação com a Eurofarma”, explicou.

Martha Penna, vice-presidente da farmacêutica e egressa da UFRJ, evitou comentar sobre a situação dos projetos. “Para nós não interessa fazer um projeto que dê certo. O ideal é fazer uma plataforma que funcione e que se perpetue. A história do desenvolvimento farmacêutico é bem longa. Agora, estamos assinando o convênio. Daqui a dois, três anos, um dos projetos deve entrar em estudo clínico”, disse.

A assinatura do convênio faz parte da estratégia da empresa em investir em inovação. E Martha comentou, brevemente, sobre a força do setor farmacêutico brasileiro, um dos poucos que passou sem tropeços pela crise econômica por que atravessa o País, mas ressaltou se tratar de um setor que basicamente realiza cópias. “Nós queremos dar um salto qualitativo e deixar de ser uma indústria de cópias para ser uma indústria de inovação. E não é possível fazer inovação sem uma aliança sólida com a academia. Meu sonho é pagar muitos royalties à UFRJ”, declarou.

A diretora Científica da FAPERJ, Eliete Bouskela, falou da importância da aproximação entre academia e setor produtivo, como forma de atrair investimento em meio à crise dos financiamentos governamentais, fomentar a pesquisa e dar perspectiva de emprego para os pesquisadores formados nas universidades. “Hoje não é mais um palavrão falar em parceria com o setor produtivo. Hoje, todos os países desenvolvidos têm um grande contingente de doutores fora da universidade. Então, existe alguma coisa errada no Brasil quando 80% dos doutores ficam apenas na academia. As empresas não precisam de doutores para fazer cópias. Quando as empresas querem realmente fazer coisas novas, elas vão abrir um campo para estes profissionais”.

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Eurofarma, fármacos, indústrias farmacêuticas, moléculas

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