Composto de carbono envolvido por envelope lipídico potencializa efeitos de possível opção de tratamento contra doença

O grande destaque da pesquisa da UFMG é que pela primeira vez foi possível provar que o fulerol reduz a carga do parasita leishmania no fígado do hospedeiro

Transmitida pelo mosquito-palha, a leishmaniose visceral ou calazar é a forma mais grave dessa doença tropical infecciosa sistêmica. Na busca por aperfeiçoar o tratamento, ao torná-lo menos agressivo ao organismo humano e animal, uma pesquisa experimental liderada pelo professor titular Frédéric Frézard, do departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, publicou artigo na revista Biomedicine & Pharmacotherapy (fevereiro/2021) demonstrando uma abordagem terapêutica inovadora, baseada na associação de dois nanossistemas.

A leishmaniose visceral atinge vários órgãos internos, principalmente fígado, baço e medula óssea e sua taxa de mortalidade, se não for tratada, é de 95%. São cerca de 90 mil novos casos a cada ano, com aproximadamente 20 mil mortes, 3.500 só no Brasil, e um grande número de pessoas com sequelas ou morbidades. Além do Brasil, a doença ocorre principalmente em Bangladesh, Etiópia, Índia, Sudão do Sul e Sudão, estando muito relacionada à pobreza e a condições de vida precárias.

O grande destaque da pesquisa da UFMG é que pela primeira vez foi possível provar que o fulerol reduz a carga do parasita leishmania no fígado do hospedeiro. Além disso, comprovou-se que ele permite que a ação contra o protozoário não produz efeitos indesejados ao passo que reduz os efeitos tóxicos no fígado causados por um medicamento que vem sendo usado no tratamento da doença, sem prejudicar sua ação farmacológica.

“Os efeitos imunomoduladores e a baixa toxicidade da nanoestrutura esférica de carbono fulerol nos levaram a investigar a atividade antileishmania em animais vivos e em meios de cultura in vitro, tanto em formas livres quanto encapsuladas em lipossomas”, explica o professor Frédéric.  O fulerol pode provocar reações no organismo que levam à ativação das células capazes de combater o protozoário causador da doença, a leishmania.

Os lipossomas são vesículas microscópicas, uma espécie de “bolha de lipídio dentro de um líquido”, que é biodegradável e biocompatível. Graças a sua capacidade de carregar o fulerol, os lipossomas funcionaram como uma espécie de envelope para transportar este potencial medicamento para dentro da célula.  Com isso foi possível aumentar a quantidade de substância disponível para o efetivo tratamento da doença, garantindo sua ação mais prolongada em animais vivos, usando dose muito baixa.

Segundo Frézard, um próximo passo do grupo é tentar investigar a eficácia terapêutica do fulerol lipossomal em cães. “Até hoje, ainda não foi encontrado tratamento capaz de curar cães com leishmaniose”, observa o pesquisador. Ainda segundo ele, a formulação lipossomal também poderia ser usada em associação com outros medicamentos contra leishmaniose. “Isso poderia tornar o tratamento mais eficaz”, alerta o pesquisador, considerado um dos mais influentes do mundo em artigo publicado na Plos Biology, e que participa da invenção de três tecnologias baseadas em nanossistemas carreadores de fármacos.

Fruto da dissertação de mestrado de Guilherme Santos Ramos, junto ao Programa de Pós-graduação em Fisiologia e Farmacologia, o estudo teve colaboração de cientistas dos departamentos de Parasitologia do ICB e de Física, do Instituto de Ciências Exatas, com financiamento do CNPQ e da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais.

Artigo: Antileishmanial activity of fullerol and its liposomal formulation in experimental models of visceral leishmaniasis.

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fulerol, leishmaniose visceral, nanossistemas

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