Ao todo foram coletadas 101 amostras com o uso de um Swab, que foi passado de maneira vigorosa nas superfícies. Elas foram colocadas em uma solução de transporte capaz de inativar o vírus sem eliminar seu material genético. A existência ou não desse genoma é o que o grupo deveria averiguar na fase seguinte, no laboratório

Em iniciativa inédita na cidade, uma equipe de virologistas da UFMG realizou testes em pontos estratégicos de Belo Horizonte para detectar a presença do novo coronavírus em locais públicos, como pontos de ônibus e bancos de praças. Após confirmação da existência do genoma em 17 amostras, Prefeitura de Belo Horizonte procedeu, na última quarta-feira, 6 de maio, à desinfecção. Novas análises foram conduzidas pela Universidade e confirmaram a eliminação do vírus.

A ideia para o trabalho surgiu quando os pesquisadores perceberam que, apesar da grande disseminação de notícias e falas de especialistas alertando que o novo coronavírus pode ser transmitido pelo contato de pessoas com locais públicos contaminados, a literatura ainda possui um gap sobre o assunto. “Há poucos dados a respeito da presença do vírus em superfícies públicas, como pontos de ônibus, corrimões de terminais de ônibus, praças, etc.”, esclarece Jônatas Abrahão, professor do Departamento de Microbiologia da UFMG e coordenador do Laboratório de Vírus, no qual nasceu a proposta.

Foi assim que o grupo decidiu sair para locais estratégicos de Belo Horizonte e realizar alguns testes para avaliar cientificamente a situação da cidade. O escopo de pesquisa foi delineado com base nas informações prévias que já existiam em relação aos lugares nos quais casos humanos do vírus estavam sendo mais notificados. Com base nisso foi feito um planejamento, definiram-se protocolos de atuação e a equipe seguiu para a região Centro-sul, que havia sido fixada como área de grande incidência de Covid-19.

Um dos locais escolhidos para a pesquisa foi a região hospitalar, na Avenida Alfredo Balena, na Alameda Ezequiel Dias e em alguns hospitais da região Centro-Sul. “Nós coletamos amostras em frente aos hospitais, no piso, nunca dentro deles, e nos pontos de ônibus relacionados a esses hospitais”, explica Jônatas Abrahão.

Também foram testados quatro terminais do MOVE no Hipercentro de Belo Horizonte, particularmente na Avenida Paraná e na Santos Dumont. Além disso, bancos e mesas de concreto de três praças foram analisados: “em Santa Teresa fomos à Duque de Caxias e na Savassi fomos a uma pequena praça de alimentação na rua Pernambuco, quase na Avenida Getúlio Vargas, e à Diogo de Vasconcelos”, relata o pesquisador.

Procedimentos e resultados

Ao todo foram coletadas 101 amostras com o uso de um Swab, uma espécie de cotonete que foi passado de maneira vigorosa nas superfícies. Elas foram colocadas em uma solução de transporte capaz de inativar o vírus sem eliminar seu material genético. A existência ou não desse genoma é o que o grupo deveria averiguar na fase seguinte, no laboratório.

Foi detectada a presença do novo coronavírus em 17 amostras, correspondentes às de pontos de ônibus, sobretudo da região hospitalar, às do passeio da entrada de um hospital, próximo à área de pronto atendimento, às dos corrimões das linhas do MOVE, tanto na avenida Paraná quanto na Santos Dumont, e, por fim, às das três praças analisadas, em uma mesa da Duque de Caxias e nos bancos das praças da Savassi.

“O resultado indica que o vírus está presente no ambiente da cidade, contaminando diversas superfícies. Detectamos o RNA, o genoma do vírus, não o vírus infeccioso, mas isso é um fortíssimo indício de que ele pode infectar as pessoas que eventualmente tenham contato com esses ambientes, ao levarem as mãos ao rosto sem a prévia higienização”, alerta Jônatas Abrahão.

Atuação junto à Prefeitura

Assim que os resultados foram comprovados a equipe entrou em contato com a Pró-reitoria de Pesquisa da UFMG, que por sua vez procurou a Prefeitura de Belo Horizonte para que ela procedesse à desinfecção dos locais, um trabalho que já tem sido feito em áreas hospitalares da cidade. Essa desinfecção foi realizada pela Prefeitura com o uso de sabão em pó e hipoclorito de sódio 1%. Todos os pontos contaminados foram testados novamente pelos virologistas da UFMG, que não detectaram mais o RNA viral nas amostras.

Segundo Abrahão, existe por parte do grupo de pesquisadores o interesse em ampliar a análise, procedendo de forma mais frequente e coordenada, com possibilidade de orientações semanais para a Prefeitura sobre os focos nos quais devem ser realizadas as desinfecções. Contudo esse procedimento depende do interesse e aprovação da administração municipal e da Universidade.

“Fazemos parte do chamado grande laboratório UFMG, que vem auxiliando a Secretaria de Estado de Saúde nos diagnósticos da Covid-19, então a reitoria tem centralizado as ações, tanto de diagnostico quanto de divulgação de resultados. Se for de interesse de todos queremos sim expandir as análises”, conclui o professor, que submeterá a revistas médicas como principal autor, ainda nesta sexta-feira, um artigo aprofundando o trabalho realizado pela equipe da UFMG. O material também será divulgado como preprint.

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genoma, locais públicos, novo coronavírus

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